Josa, este mote teu veio através da glosa do poeta
Wellington Vicente.
Fiz o que pude.
Sinhô Pereira aceitou
Virgulino no seu bando
Depois passou-lhe o comando
A capitão lhe elevou
De Lampião batizou
Depois dum combate quente
Do seu fuzil estridente
Saia um fogo danado
Não existe aposentado
Na profissão de valente.
No cangaço, Jurity
Volta seca, mergulhão
Corisco, Belo, Azulão
Zé sereno e Bem-ti-vi
Cabeleira e jabuti
Sabino Gomes, Vicente
Jararaca, o inclemente
Em vida foi enterrado
Não existe aposentado
Na profissão de valente.
Foi Jurema e Zé balbino
Ezequiel e Cacique
combater em Xique Xique
aonde morreu Levino
Em Sousa foi Virgulino
Baleado gravemente
Em angicos cruelmente
Ele foi atraiçoado
Não existe aposentado
Na profissão de valente
Antonio Benício era
Fugitivo da polícia
Formou a sua milícia
Bravo que só uma fera
mas a historia exagera
dizendo qu’ ele era crente
não maltratava indigente
mas foi amaldiçoado
não existe aposentado
na profissão de valente.
Lembro que em caruaru
Tinha uma figura estranha
chamado mãe de pantanha
preto da cor de urubu
e viciado em pitu
Um latrocida indecente
Foi abatido de frente
D'uma escola no “salgado”
Não existe aposentado
Na profissão de valente.
Ser valente não implica
Ser um mero desordeiro
ser manso como um cordeiro
covardia não indica
valente significa
na hora aga tá presente
não acuse injustamente
só brigue se obrigado
não existe aposentado
na profissão de valente.
Não confunda valentia
Com um transtorno mental
Sujeito anti social
uma psicopatia
Toda armação ele cria
Calculista e envolvente
Nenhum remorso ele sente
Se preso vai conformado
Não existe aposentado
Na profissão de valente.
Receba amigo, um conselho
Tolerante se conserve
A sua vida preserve
Até andando de joelho
A vida é um grande espelho
As faltas que há n’agente
Se refletem fielmente
Pra onde tenha apontado
Não existe aposentado
Na profissão de valente.
Pedro Fernandes de Araújo
João Pessoa, 25/03/2008.
Josa, minhas modestas estrofes com seu mote. Despretenciosamente.
Meu bisaco de poesia tem mais pena do que pedra, por isso não vai muito longe.
Um abraço.
Terra seca, esturricada
Ária, pobre e sem vigor
Mas seja lá onde for
Que sou de lá, nego nada
Foi e será sempre amada
lá de novo eu nasceria
a raiz que me nutria
imita o mandacaru
Quem nasceu no pajeú
Tem o “gen” da poesia.
Nascer naquela ribeira
É privilégio de poucos
Poetas, músicos, loucos
De alma leve e ordeira
A poética é mensageira
No cordel, na cantoria
Lá se canta todo dia
Mesmo sem ganhar tutu
Quem nasceu no pajeú
Tem o “gen” da poesia.
Louro, Dimas, Otacílio
Jó tinha verve marôta
Cícero, Anita, Zé catôta
Cantavam motes de Hercílio
Zé Adalberto, Marcílio
Clodomiro Paes não lia
Pedro Amorim aplaudia
Marinho e Zezé Lulu
Quem nasce no Pajeú
Tem o”gen” da poesia.
Também banhou-se no rio
Zé Dantas, grande poeta
Numa inspiração completa
Fez Riacho do Navio
Em sua letra escupiu
Samarica e Proficia
Luiz Gonzaga dizia
Vem morena, Rei Bantú
Quem nasce no pajeú
Tem o”gen” da poesia
Ouvir poema, ouvi mote
Explicitando a beleza
Das cenas da natureza
Como o salto do caçote
O sapo embaixo dum pote
Recebendo a água fria
Dos pingos que lhe caia
Do ponte de barro cru
Quem nasce no pajeú
Tem o”gen”da poesia.
Viver distante me arrasa
mas morar lá eu não posso
quase que me dá um “troço”
São Pedro fora de casa
Sintir o calor da brasa
Aquecendo a noite fria
Ver que a fumaça subia
Dum tronco de mulungu
Quem nasce no pajeú
Tem o “gen” da poesia.
João Pessoa, 11/03/2008 - Dia nacional da poesia
Pedro Fernandes.
Uma camisa ordinária
Com número e fotografia
Um bigodudo sorria
Na TV imaginária
Distribui a indumentária
Com eleitor iludido
Passa dois meses vestido
No outdoor do ladrão
Na época da eleição
Todo pobre é conhecido.
Político profissional
Já vive de cara lisa
A todos diz que precisa
Receber o nosso aval
Mas na câmara federal
Ele se faz de esquecido
Muda logo de partido
E diz oh povo pidão !
Na época de eleição
Todo pobre é conhecido.
Como vai parente amigo?
Meu querido conterrâneo
Seu pai foi contemporâneo
serviu caserna comigo
Como vai ele Rodrigo?
Pergunta o cabra fingido
Soube que havia morrido
E fez uma encenação
Na época de eleição
Todo pobre é conhecido.
Siá Maria Carrapato
Recebeu um visita
Um metro e meio de chita
Pra votar num candidato
Um punhado de retrato
Para ser distribuído
Um boné pra seu marido
E para o filho um calção
Na época da eleição
Todo pobre é conhecido.
Mote de : Laci Chaves
Glosa: Pedro Fernandes
João Pessoa, 22/08/2008.
O sol nascente aqueceu
As asas do vento morno
Como uma boca de um forno
Que natureza acendeu
O verão firme sem chuva
Some a formiga saúva
Abelhas sentem o estio
Fundas cacimbas de areia
sangrando água da veia
Do leito seco de um rio.
Acordar de madrugada
Sem preguiça, sem catimba
Já tem fila na cacimba
Que a água está esgotada
Espera que o olho o d´água
Como quem chora de mágoa
Forme um açude minúsculo
Mulher, ancião, meninos
Exibem corpos franzinos
Só pele, osso sem músculo.
Formam-se redemoinho
Na aragem quente da tarde
Sol à pino, o olho arde
Poeira invade o caminho
Uma coruja crocita
Um papagaio manso grita
Fecha a janela Maria!
Uma mulher vem da horta
Fecha e reza atrás da porta
Com medo da ventania.
Na roça as folhagens sêcas
Do milho que não vingou
O vento forte levou
bonecas murchas e pêcas
O feijão não formou vagem
Foi vítima da estiagem
Que calcina a região
No mesmo chão que plantei
Para o ano insistirei
Pra não deixar meu torrão.
Minha derradeira vaca
Da qual eu tirava o leite
Está servindo de enfeite
Na ponta daquela estaca
A ossada da cabeça
Como quem diz não esqueça
Aqui eu fui útil outrora
Ali virou talismã
Meu filho toda manhã
Ao passar por ela chora.
O roçado lá da serra
Foi verde, mas tá cinzento
Dois meninos num jumento
Puxam um cabrito que berra
Só tem o couro e o osso
Os quatro buscam um poço
Onde a sede matarão
Na volta enchem uma lata
Esse cenário retrata
Uma seca no sertão.
Pedro Fernandes
João Pessoa, 15/03/2008.
Conheci Biu de Crisanto
Paralítico e solitário
avesso a noticiário
recluso no seu recanto
um poeta que leu tanto
genética e filosofia
seu corpo não se movia
mas voava o pensamento
tem que haver sofrimento
pra fluir a poesia.
Rogaciano sofreu
e quase perdeu a calma
o seu livro "carne e alma"
com emoção escreveu
Jó, foi conterrâneo seu
na mesma fonte bebia
à "das Neves" oferecia
verso em frente o aposento
tem que haver sofrimento
pra fluir a poesia.
Cancão foi iluminado
mas o amor lhe feriu
ele silente partiu
Poemas foi seu legado
Outro poeta lembrado
Xudú nos versos dizia
que Anita os recebia
das asas leves do vento
tem que haver sofrimento
pra fluir a poesia.
Mote do repentista Xexéu
Glosa de Pedro Fernandes
João Pessoa, 31/03/2008.
Um abraço.
Um abraço poeta, com a força da correnteza do rio pajeú, nesse dias !!!
Eu era bem piquinino
Tu era mais maiózinha
Brincano lá na pracinha
Num brincava cum minino
Teu sapatin tinha um sino
Qui na grama se perdeu
Tirei o sino do meu
Dizeno: não sô lulu
mermo assim eu vi qui tu
Nunca arreparava n’eu.
O tempo foi se passano
Criei baiba qui nem bode
Quando a mucidade exprode
as paixão vão se chegano
As intenção vão mudano
Inocença se perdeu
Mas num sõi aconteceu
Nois dois junto ficá nu
Pruque d’ôto jeito tu
Nunca arreparava n’eu.
Eu vô li sê munto franco
Cuma eu sufri pru você
E sufri sem merecê
Qui o coração fico manco
Hoje de cabelo branco
Num cúipo o qui sucedeu
amô qui você nun deu
Eu incontrei in Zilu
Pruquê eu sôbe qui tu
Nunca arreparava n’eu.
Mote do poeta: Wellington Vicente
Glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 06/03/2008.
A noite a chuva caiu
Amanheceu diferente
O sertanejo contente
Nova esperança surgiu
Aquele sorriso abriu
Para a roça foi cantando
Na beira do rio chegando
Surpreso pois a dizer
Como é bonito se ver
O pajeú transbordando.
Pode causar prejuízo
Porque o rio está raso
Tanto tempo de descaso
Uma Dragagem é preciso
Não pode ser de improviso
É preciso ir planejando
deixar a água escoando
No seu leito se manter
Assim é lindo se ver
O pajeú transbordando.
As roças próximas do rio
Quem plantou se arrependeu
Toda lavoura perdeu
Porque a água cobriu
Virou lagoa o baixio
O pobre se interrogando
Que pecado tô pagando
Com chuva ou sol eu perder
Inda bem que pude ver
O pajeú transbordando.
O Tejo fugiu pra serra
O sapo desceu na cheia
Resto de cêrca passeia
Na água da cor de terra
Um borrego novo berra
Como quem está chamando
A mãe que desceu berrando
Bem distante foi morrer
Tudo pode acontecer
O pajeú transbordando
Eu fecho os olhos me vejo
Na beira do rio, á toa
Jota Simão na canoa
Um craque no seu manejo
atravessa o sertanejo
Só alguns passam nadando
Zé de Edite ajudando
Depois se dana a beber
Eu menino pude ver
O pajeú transbordando
É um motivo de festa
Menino tomando banho
entusiasmo é tamanho
De Itapetim à Floresta
O povo se manifesta
Esquece a seca cantando
E as beatas rezando
À Deus para agradecer
O quanto é belo se ver
O pajeú transbordando
De ir lá me deu vontade
Contemplar este cenário
Mas qual um presidiário
Impedido atrás da grade
A enchente da saudade
A vista foi me turvando
A lágrima foi inundando
chorei não pude conter
O meu desejo era ver
O pajeu transbordando.
Mote do Poeta: Josemar Rabelo
Glosa de Pedro Fernandes
João Pessoa, 08/04/2008.
Amanheci aluado
de tanto pensar em Vera
quando ela disse já era
nosso amor tá acabado
eu já chorei um bocado
nessa insônia insistente
me dano a fazer repente
com pensamentos perversos
um redemoinho de versos
na cachoeira da mente.
Desabafo de poeta
revelado num poema
falando no seu dilema
de uma paixão secreta
o amor quando se injeta
no coração do vivente
é parecido a enchente
deixa os tinos submersos
um redemoinho de versos
na cachoeira da mente.
Senti o clima mudando
pras bandas do meu sertão
depois eu vi o clarão
na tela do céu piscando
um trovão acompanhando
com sua voz estridente
me manifestei silente
do jeito dos introversos
um redemoinho de versos
na cachoeira da mente.
Sinto saudades do povo
do lugar onde nasci
eu de lá cedo dalí
só em lembrar me comovo
um dia eu volto de novo
para sentar no batente
e levar pra essa gente
que tem sentimentos tersos ¹
um redemoinho de versos
na cachoeira da mente.
Mote:Josa Rabelo
Glosa Pedro Fernandes
Ao ver a lua me inspiro
A nostalgia domina
Furtiva sobre a colina
É quando mais admiro
Narcotizado deliro
Nesse clarão reluzente
Sinto a força da corrente
Dividindo os universos
Um redemoinho de versos
Na cachoeira da mente.
O rio da poesia
Ta de barreira a barreira
Não é cheia passageira
É uma constante invernia
Surge como uma magia
Que a boca é só a vertente
Porque a sua nascente
Sãos neurônios submersos
Um redemoinho de versos
na cachoeira da mente.
(¹) Puros
Poeta, desculpa aí, mas a produção foi essa .
Um abraço, pajeuzeiro.
Pedro Fernandes
Sendo a vida uma viagem
As mãos de uma parteira
Foi a estação primeira
Desembarquei na coragem
Eu não trazia bagagem
do ventre que era morada
O abraço de chegada
Chôro no primeiro beijo
Eu olho pra trás e vejo
na poeira da estrada.
O caminho da escola
A primeira professora
A música na difusora
O compacto na vitrola
o roubo de graviola
brincadeira na calçada
a primeira namorada
que me frustrava o desejo
eu olho pra trás e vejo
na poeira da estrada.
caminhos que percorri
pontes que atravessei
sombras onde descansei
o pão doce que vendi
frio e calor que senti
a alpargata torada
eu comia tripa assada
com pensamento no queijo
eu olho pra trás e vejo
na poeira da estrada.
Eu fui um jovem esportista
Que não ligava pra taça
Jogava pela cachaça
Uma prática amadorista
Contribuí pra conquista
Nos campinhos de pelada
E na tática improvisada
fui campeão sertanejo
eu olho pra trás e vejo
na poeira da estrada.
Deixei meu torrão saudoso
Porque não dizer tristonho
Em busca daquele sonho
D’algum dia ser famoso
Ingênuo, cru, generoso
Bati em porta fechada
Levei da vida pancada
Da inocência despejo
Eu olho pra trás e vejo
Na poeira da estrada.
Um emprego, a faculdade
O primeiro rendimento
Pedido de casamento
veio a paternidade
tempo põe velocidade
quando sopra dá rajada
não dá ré nem faz parada
nem, o seu leme eu manejo
Eu olho pra trás e vejo
Na poeira da estrada.
Estou sentindo um enfado
Lembrança mostrando falha
As contusões, dor espalha
Dando sinal de cansado
Eu sou um resignado
Sem remorso da jornada
que só será completada
fazendo o último cortejo
eu olho pra trás e vejo
A poeira da estrada.
Mote e glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 03/05/2008.
No pano verde da vida
Quem dava as cartas era eu
Até que me apareceu
A ingênua Aparecida
sedutora, bem vestida
de falsa ingenuidade
Cheia de cumplicidade
Com um "crupier" ladrão
Na roleta da paixão
Meu prêmio será saudade.
Uma mulher eu ganhei
No relancim da paquera
Antes d’uma primavera
Ela disse já cansei
Desse baralho enjoei
Não me contenta a trindade
Foi embora da cidade
Fugindo com Ricardão
Na roleta da paixão
meu premio será saudade
Eu caí na jogatina
De aventura amorosa
Apostei e ganhei Rosa
A mais bonita menina
Angelical e grão-fina
Quando eu tirei “liberdade”
Ela me disse em verdade
De homem eu não gosto não
Na roleta da paixão
Meu prêmio será saudade.
O casamento é sinuca
Cada dia uma jogada
Tem que acertar a tacada
Se o taco espirra machuca
O giz de esfriar a cuca
A sublime lealdade
No fuso marca idade
De bico é separação
Na roleta da paixão
meu premio será saudade.
Com Míriam fiz parceria
Na bacarat do amor
Com ela fui ganhador
No jogo não me traía
A toda hora dizia
Eu tenho felicidade
A morte só por maldade
Cancelou nossa união
Na roleta da paixão
meu prêmio será saudade.
Poeta véi, foi o que pude fazer. Desculpe aí.
Um grande abraço.
Pedro Fernandes.
.
Um grande abraço, poeta !!!
Mãe
Mãe que me deu luz e vida
Me abrigou nove meses
Se acordou muitas vezes
Pra fazer minha comida
Quando sentia a mordida
Que eu lhe dava nos seios
De água seus olhos cheios
A mamada não parava
aí é que me abraçava
saciando meus anseios.
Se eu dormisse de dia
Ficava a noite acordado
E ela ali do meu lado
Cochilava e não dormia
Se a noite tivesse fria
Me agasalhava na manta
A fé de mãe era tanta
Enquanto embalava o berço
Ia dedilhando um terço
Rezando pra outra santa.
Ela me pôs na escola
Preparou minha merenda
Como eu não tinha agenda
Mãe pregava na sacola
um bilhetinho com cola
A professora Ritinha
passa a ficha todinha
de como me comportei
e eu nunca desconfiei
E pensava: mãe advinha.
Me acordar com carícia
Toda manhã ela vinha
Para o café na cozinha
E me servia a delícia
Papai ouvia a notícia
No rádio de pilha antigo
Mamãe sentava comigo
Dividindo a tapioca
Gesto que na CEIA invoca
Jesus repartindo trigo.
Os afazeres da casa
Mãe me ensinou bem cedo
Dizia não tem segredo
Fazer um fogo de brasa
Me dizia quem se atrasa
Mostra falta de respeito
Aprendi forrar o leito
Fazer mala pra viagem
O que pus nessa bagagem
Nunca mais será desfeito.
O tempo foi se passando
Perversidade trazendo
mamãe foi envelhecendo
A cabeleira pintando
sua memória falhando
A vista ficando escura
Sua passada insegura
A mão pegou a tremer
Mas não parou de crescer
O seu jardim de ternura.
Ser mãe é missão sublime
Um divino ministério
Há prêmio também cautério
Compondo o mesmo regime
Se o filho comete um crime
Faz parte do seu destino
Sofre com tal desatino
é do filho a defensora
Se ajoelha e diz: doutora
Me prenda e solte o menino.
Mamãe tinha fé castiça
Me ensinou a rezar
No domingo me acordar
Para assistir uma missa
Me ensinou que a preguiça
irmã da necessidade
dizia fale a verdade
mesmo que ela lhe doa
meu choro hoje atordoa
minha bússula de saudade
Mãe, é fonte de candura
Roseira que exala amor
Seu sopro alivia a dor
O seio jorra doçura
Seu colo tem a fofura
Do capucho de algodão
Uma usina de perdão
Sinfônica que o filho embala
A voz suave não cala
No palco do coração.
Pedro Fernandes
João Pessoa, 10/05/2008.
Eu trago vivo na mente
o jeito como ela andava
a roupa que ela usava
e a coroa no dente
pra roça ia na frente
não fica esmorecida
inda levava a comida
meu pai estava esperando
hoje choro me lembrando
da minha mamãe querida.
Sua chinela havaiana
com um prego atravessado
correia tinha quebrado
só porque não tinha grana
chegava o fim-de-semana
não arrefecia a lida
botava a calça comprida
no cavalo ia montando
hoje choro me lembrando
da minha mamãe querida.
Criou dez filhos sozinha
depois que papai morreu
educou, do jeito seu
se alguém saísse da linha
com autoridade vinha
austera mas comedida
a falha era corrigida
assim foi nos educando
hoje choro me lembrando
da minha mamãe querida.
Mote do poeta : Abel Araujo
Glosa de: Pedro Fernandes.
João Pessoa, 10/05/2008
Mote: Josa Rabelo
Glosa: Pedro Fernandes
O amor é anzol com três barbelas
com iscas cheirosas e desejadas
nesse mar de paixão são atiradas
nos incita a nadar em busca delas
engolidas provocam umas seqüelas
ofuscando o tirocínio e a razão
um velhote enfrentar um furacão
nessas águas vira peixe o pescador
sopra a brisa suave do amor
abrandando a quentura da paixão.
Pedro Fernandes
Foi quebrado o silêncio da rotina
Quando grande arquiteto anunciou
Zé Vicente a missão já completou
O chamei para a hoste celestina
Lhe permito transpor essa cortina
E se encontrar com o Benone Conrado
Com Ascêncio, Bandeira e animado
Fazer dupla com Faustino e João de Lima
Quando parte um poeta o céu se anima
Por ganhar mais um astro iluminado.
As porteiras do céu foram se abrindo
A medida que o cortejo avançava
Sob aplauso, reverência onde passava
Aos acenos, retribuía sorrindo
Numa nuvem se lia “seja bem vindo”
A orquestra angelical toca um dobrado
E o maestro num gesto delicado
Lhe oferece a batuta com uma rima
Quando parte um poeta o céu se anima
Por ganhar mais um astro iluminado
Mote de Wellington Vicente
Glosa de : Pedro Fernandes
João Pessoa, 26/05/2008.
Viajei no transporte da memória
Na estrada que leva à meninice
Pra que os olhos de adulto assistisse
Aonde começou a minha história
O casebre duma família simplória
Que unida viveu e sofreu nela
A miséria entrou pela janela
E nunca mais saiu desta morada
Toda casa de taipa abandonada
Guarda um grito de fome dento dela.
Há anos ninguém mais lhe habitou
As paredes internas destruídas
A madeira das portas corroídas
que o cupim do tempo se instalou
A coberta de palha se queimou
O barreiro coberto de favela
A tristeza do cenário nos revela
O quanto a pobreza é castigada
Toda de casa de taipa abandonada
Guarda um grito de fome dentro dela
Mote de : Ademar Macedo
Glosa de: Pedro Fernndes
João Pessoa, 31/05/2008.
Um bom domingo, poeta.
JOSA,
um abraço, poeta!!.
Era assim...
O fumaceiro anuncia
Que chegou o São João
No espaço um foguetão
Deixa um rastro de magia
Um balão se distancia
No ventre da noite escura
Ninguém sabe em que altura
Nem aonde vai parar
De tanto a gente espiar
Com estrelas se mistura
O cheiro de milho assado
Se espalha no terreiro
Um busca-pé bem ligeiro
Ciscando pra todo lado
Um matutinho assustado
Corre pra dentro de casa
Vovô pisava na brasa
Mostrando ao povo o que é
Um homem puro e de fé
Que humildade extravasa.
Depois da fogueira acesa
Roqueira dar estampido
Bacamarteiro atrevido
aponta e com ligeireza
dispara trincando a presa
chapéu quebrado na testa
depois olha pra Ernesta
coração acelerado
ela diz ta aprovado
ele diz ganhei a festa.
Tem pamonha e tapioca
Cocada De amendoim
Doce de coco, alfenim
Batata doce e pipoca
Pé de moleque, paçoca
Tem bolo de macaxeira
Água quente na chaleira
Pra fazer café ou chá
Tem pão-de-ló, mungunzá
Queijo e manteiga caseira.
Toda comida é servida
Sem hora pra o fim da ceia
Depois da barriga cheia
Inda cabe uma bebida
Tem o quentão e batida
De frutas da região
jÁ BEM VARRIDO O Salão
Grita alto o sanfoneiro
Viva Antonio casamenteiro
Viva São Pedro, São João.
Era assim o meu São João
Que jà não existe mais
Costumes das capitais
Invadiram o meu sertão
A música de Gonzagão
Se ouvir é raridade
Tanta criatividade
Sendo substituída
Por música prostituída
Mata a gente de saudade.
João Pessoa, 08/06/2008
Pedro Fernandes
No espaço o sol é o astro rei
Que viaja na BR do infinito
o arrebol é o quadro mais bonito
que em minha vida já presenciei
Com a morada da águia me encantei
Seu tamanho, altura e posição
OH! que ave tão bonita é o pavão
que se orgulha de sua boniteza
No cinema maior da natureza
Tem um DEUS na sua direção.
A cascata que chora noite e dia
Umedece a face da montanha
notívaga a coruja se assanha
encantada com a luz da lua fria
Clareando o cenário em calmaria
Os artistas da mata agora estão
Hospedados sobre a vegetação
Amanhã apresentam outra beleza
No cinema maior da natureza
Tem um DEUS na sua direção.
Glosa: Pedro Fernandes
João Pessoa, 03/07/2008.
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De manhã andar na praia
Pé descalço sobre areia
Contemplar a lua cheia
Branca da cor de cambraia
Uma nuvem forma a saia
Como quem quer escondê-la
Só volto depois de vê-la
Exposta, inteira, despida
Se eu não tivesse essa vida
Pediria a DEUS pra tê-la
Viver sem poluição
Sem o calor do deserto
O que preciso tem perto
Nem precisa condução
Um shop em pé no balcão
Na porrinha sou estrela
Essa fama vou mantê-la
Com ela ganho a bebida
Se não tivesse essa vida
Pediria a DEUS pra tê-la.
Sentar no banco da praça
Sem compromisso marcado
Ficar de papo furado
Olhando o povo que passa
Moçoila cheia de graça
É um prazer conhecê-la
Se não puder convencê-la
Vou lhe deixar comovida
Se eu não tivesse essa vida
Pediria a DEUS pra tê-la.
Mote de: Marcos Ferraz
Glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 11/07/2008.
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Um adjunto pra roça
limpa de mato e plantio
do alto para o baixio
só vai quem tem a mão grossa
a água está na palhoça
numa cabaça no chão
e como não tem fogão
sobre trempre queima lata
Só um poeta retrata
as coisas do meu sertão.
Espingarda socadeira
O caçador de rolinha
Espera de manhanzinha
Debaixo da quixabeira
Num espera traiçoeira
É de cortar coração
Se acaso tremer a mão
chumbo se espalha e mata
Só um poeta retrata
As coisas do meu sertão.
Em julho viva Santana
Toda noite uma novena
sendo a cidade pequena
depois do terço tem cana
forró no fim de semana
Tem bacamarte e balão
Um frango vai a leilão
Maior oferta arremata
Só um poeta retrata
As coisa do meu sertão.
Mote de: João...
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Esse banzo me domina
Não há programa engraçado
Fico no quarto trancado
O mau humor se confina
Não saio nem na esquina
E nem dedilho o piano
Desisto de fazer plano
Porque me falta alegria
A sua ausência de um dia
Gera saudade de um ano.
Desaprendo a dar risada
Fico sério carrancudo
Todos notam quando mudo
Fico de cara amarrada
Não piso nem na calçada
Pra não falar com fulano
nem revelar a ciclano
Quanta falta faz Maria
A sua ausência de um dia
Gera saudade de um ano.
Eu não sei ser diferente
Não aprendi disfarçar
Chega a hora do jantar
Espero que você sente
Mas você esta ausente
Sinto n’alma um desengano
Pego um litro de cinzano
Se fossem dois eu bebia
A sua ausência de um dia
Gera saudade de um ano.
Pedro Fernandes, João Pessoa, 11/07/2008.
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É preciso amar pra ser feliz
É preciso estudar pra aprender
É preciso viajar pra conhecer
É preciso encenar pra ser atriz
Só depois da primeira pede bis
para alma olho serve de janela
É preciso ter pavio pra ser vela
Pra colher é preciso que se plante
A morada de Deus é tão distante
Que é preciso morrer pra entrar nela.
Pra viver é preciso correr risco
O relâmpago antecede a um trovão
O morcego se abriga num porão
Vento forte carrega qualquer cisco
Protetor de animais é São Francisco
Divertimento de pião é currutela
Vida fácil só existe na novela
Todo mestre um dia foi estudante
A morada de Deus é tão distante
Que preciso morrer pra entrar nela.
Mote do Poeta; Lima Jr.
Glosa de: Pedro Fernandes
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Certas senas vistas no cotidiano
arrepiam minh’ alma e contamina
bandido que estupra uma menina
patrão que explora o ser humano
Uma família no mar de desengano
Sem trabalho, sem pão e moradia
Perambula pela rua todo o dia
A noite vai dormir sem comer nada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia
Passa o dia a pedir de porta em porta
ouvir não, já não lhe afeta mais
todo dia é manchete nos jornais
com retrato duma criança morta
se por acaso o frio não suporta
se cobre com jornal que noticia
o crack não perdoa a quem vicia
mesmo assim ele dar uma tragada
um menino dormindo na calçada
e um cachorro servindo de vigia.
Sua cama é de cimento grosseiro
Junto à porta de vidro atrás da grade
A marquise já caiu quase a metade
de dia o seu nome é maloqueiro
pivete, trombadinha, maconheiro
um vira lata que atende por cutia
solidário, lhe acompanha pela via
toda noite essa peça é encenada
um menino dormindo na calçada
e um cachorro servindo de vigia.
Essa farmácia da rua da matriz
Fica aberto somente até às dez
Seus vizinhos são bares e cafés
Ao fecharem, se abre a cicatriz
De uma vida rude, torpe, infeliz
Que amanhece rente a soleira fria
Ao escárnio da vil democracia
Que finge não ser contaminada
Um menino dormindo na calçada
E um cachorro servindo de vigia.
Mote de: Clóris.
Glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 12/07/2008.
Um abraço, poeta !!!
Se o São João não foi bom
Seja feliz em Santana
Os laços que nos irmana
É canal que escorre som
Às vezes se erra o tom
Desvirtua a melodia
se de nós não dependia
A vida é a maestrina
Com sua batuta afina
Refazendo a harmonia.
Cantar é o seu destino
Poesia é seu produto
Como seu fã eu refuto
Seu silêncio repentino
Puxe o badalo do sino
Espante a chateação
A luz da animação
Precisa ficar acesa
Se despeça da tristeza
Entoando uma canção.
Na orquestração da vida
Cada um tem seu papel
Do soldado ao coronel
A caserna é assistida
Se uma pessoa querida
Sopra desobediência
Arca com a conseqüência
Porque o código é assim
Ninguém vai pagar por mim
Nem no caso de amência.
João Pessoa, 13/07/2008
Pedro Fernandes
Mote do poeta Lima Jr.
Sua presença pra mim é refrigério
Sua imagem me serve de colírio
O sussurro da voz leva ao delírio
Seu corpo do amor é um império
Sua ausência produz em mim cautério
O crepúsculo vai mais cedo acontecer
esperando logo mais amanhecer
e nosso ninho de amor vir clarear
Sou capaz de pedir para cegar
Se olhar para o mundo e não te ver
Alimento minh’alma com seu gesto
O seu cheiro embriaga a minha mente
Quero ser seu amante eternamente
E pra isso hoje aqui me manifesto
Para tal eu transpus pântano funesto
Obstáculos mortais pude vencer
Para tê-la em meus braços e lhe dizer
Do langor que eu sinto ao lhe beijar
Sou capaz de pedir para cegar
Se olhar para o mundo e não te ver.
A influência que borrifas sobre mim
Qual orvalho asperso sobre a flor
Não altera o perfume nem a cor
Da begônia, Camélia ou do jasmim
És a aura de um anjo querubim
Que caminha comigo a proteger
Não há mal que me possa acontecer
Sua presença não posso diespensar
Sou capaz de pedir para cegar
Se olhar para o mundo e não te ver.
Mote do Poeta: Lima Jr.
Glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 16/07/2008.
Um abraço, poeta!!!
Um fato até curioso
Que a mim não incomoda
Não me adaptei a moda
Pintando o couro piloso
Vovô era caprichoso
Papai lhe acompanhava
Até no nome imitava
e jurou que ia mantê-lo
Hoje vejo o meu cabelo
Da cor que papai usava
No salão da natureza
A cabeleireira é cega
Primeiro vem e esfrega
Qualquer cor que dar beleza
Só depois vem a surpresa
Dessa cor não repintava
E um pote branco pegava
pintava mesmo sem vê-lo
Hoje vejo o meu cabelo
da cor que papai usava.
Obedecendo a genética
Eu carrego essa herança
Convivi desde criança
Nessa natureza ética
sem camuflar na cosmética
consciente que mudava
a mão de Deus me pintava
Cada fio com mais zelo
Hoje vejo o meu cabelo
Da cor que papai usava
Mote: Hugo Araújo
Glosa de: Pedro Fernandes
João Pessoa, 15/07/2008.
Dia dos pais
Pedro Fernandes de Araújo
Pai saía pra roça bem cedinho
Eu só ia mais tarde, com preguiça
arrancando os pés de hortaliça
dos pomares da beira do caminho
no percurso espantava passarinho
que na sombra da cerca descansava
quando a pedra zunia ele voava
eu olhava pra ver qual direção
outra pedra com jeito e atenção
a minha baladeira eu carregava.
E assim eu seguia pela estrada
Não fechava colchete nem cancela
Calça curta, sem camisa, de chinela
Quando via que a hora era avançada
Aumentava a freqüência da passada
Que a marmita no saco balançava
E o caldo do feijão se derramava
A água da cabaça já bem quente
Eu criava uma estória comovente
Pai dava entender que acreditava
Retornando no horário vespertino
Só chegava em casa com o sol posto
A expressão serena do seu rosto
contava a minha mãe meu desatino
Não castigue nem bata no menino
O Diálogo consolida a confiança
Pai num gesto sublime de bonança
Segurava entre as mãos minha cabeça
Eu também já fiz isso, não esqueça
Peraltice é normal quando criança
Pai me deu seu voto de minerva
Toda vez que eu errei de atitude
Me dizia é bom que você mude
Um homem responsável se preserva
Onde chega com respeito se conserva
Saiba entrar e sair com altivez
Seja homem responsável, mas cortês
Nunca minta, não roube, nem se humilhe
Espero que um dia você brilhe
Com propósito, talento e honradez.
Como pai eu não sou nem a metade
Do que foi o meu pai na paciência
Quando um filho me vem com insistência
Dizer não, castigar me dar vontade
Desisto quando inverto a minha idade
E Começo meu passado resgatar
A voz suave de papai a me falar
Fecho os olhos, conselhos vou ouvindo
Abro os olhos me pego repetindo
Que vontade papai, de lhe abraçar
Na viagem do tempo ao infinito
Embarquei assistindo aquele exemplo
Eu morei numa casa que era um templo
Sem imagem nem púlpito de granito
O que eu vi foi um gesto tão bonito
De amor, tolerância e harmonia
A página do diálogo se abria
se conflito o equilíbrio ameaçasse
quem tiver seu pai vivo lhe abrace
dia dos pais não é hoje, é todo dia.
Um abraço poeta!!!
Fui lá no Tejuaçú
Lugar onde me criei
Não me contive, chorei
Na sombra do pé de umbu
Não vi mais gado zebu
Nem cavalo, nem gibão
Sem jequi e sem mourão
Calou-se a voz do vaqueiro
Voltei pra sentir o cheiro
Das terras do meu sertão.
Menino, pastorei gado
Botei capim, Cortei palma
Trago gravadas na alma
as tarefas do roçado
meu ombro era calejado
de botar água em galão
era minha obrigação
encher os potes primeiro
voltei pra sentir o cheiro
das terras do meu sertão.
No período de moagem
Que durava uma semana
Ajudava moer cana
Mostrando minha coragem
Eu guardo viva a imagem
Dos dois bois na rotação
Tangidos por meu irmão
Que sonhava ser carreiro
Voltei pra sentir o cheiro
Das terras do meu sertão.
Mote: Jonas de Antonio de Hilário
Glosa: Pedro Fernandes
João Pessoa, 13/08/208.
Desde cedo aprender a tanger gado
pastorar e levar para o curral
tirar leite é tarefa matinal
sua escola primeira é o roçado
sem preguiça ele cresce acostumado
inicia o plantio logo em janeiro
se anima quando ver o nevoeiro
anunciando que prestes vai chover
tem que ser nordestino pra saber
dá valor ao nordeste brasileiro.
É honesto, valente e prestimoso
paciente, solidário, alegre e bom
recebem de Deus o grande dom
de poeta, sensível atencioso
No que faz é sempre caprichoso
agricultor, tangerino e bom vaqueiro
aboiador, repentista, zabumbeiro
E tocando a sanfona dá prazer !
tem que ser nordestino pra saber
dá valor ao nordeste brasileiro.
Tres figuras nasceram nesse chão
E fizeram bonito em todo canto
O maestro Sivuca é um espanto
Jackson do pandeiro e Gonzagão
Foi o rei que inventor o baião
Sua herança pra todo sanfoneiro
Se o forró toca no Brasil inteiro
É à Luiz que se deve agradecer
Tem que ser nordestino pra saber
Dá valor ao nordeste brasileiro.
Mot:Berenildo
Técnica até hoje não surgiu
Que possa nossa mente decifrar
Hipnose não deu pra enxergar
Ressonância magnética não serviu
Ultrassom também não descobriu
O que dentro da mente acontece
A idéia vem do nada e aparece
Outra idéia demora uma semana
É indecifrável a mente humana
Só o perfil do poeta estabelece
(Pedro Fernandes)
Cantarola a linda camponesa
Na cabeça a rodilha, a lata d’água
Um vestido de chita sem anágua
Todo dia percorre sem tristeza
O percurso de casa pra represa
Passa a vida refém duma ilusão
Esperando a volta de Simão
E ter filho depois do casamento
ver menino montado num jumento
estampada na bandeira do sertão
O terreiro da casa bem varrido
Que Parece uma quadra de esportes
um magote de meninos muito fortes
Cada um nessa casa foi parido
A roceira possui um só marido
Pra ter mais é preciso a condição
Ser viúva, ou por separação
D’ outro jeito não quebra o juramento
Ver menino montado num jumento
Na paisagem Bucólica do sertão
O carro de boi está sem fueiro
A forquilha escorando o cabeçote
A brocha prende o boi pelo cangote
Mas agora estão soltos no basseiro
Ficam todos em baixo d’umbuzeiro
Sem atrito do eixo com o cocão
A inércia das rodas sem tração
O silêncio é a forma de lamento
Quatro latas, a cangalha e o jumento
Estampadas na bandeira do sertão
Pedro Fernandes
Lembo a crença que havia
Que o arco-íris sugava
o nevoeiro secava
E por isso não chovia
Pra cortar essa magia
Procurava pelo chão
Três pedras pra formação
Duma pirâmide mal feita
O arco-íris se deita
Na paisagem do sertão.
Poeta é um sonhador
A natureza lhe encanta
À tarde no céu Deus Planta
um fenômeno multicor
Seja de que ângulo for
Comparo essa aparição
Um diadema grandão
Que a face da serra enfeita
O arco-íris se deita
Na paisagem do sertão.
A formiga corta a folha
Um tiziu solto dá pulo
A lagarta num casulo
Com o formato de bolha
Depois não terá escolha
Na mágica transformação
Mostrando admiração
À borboleta perfeita
O arco-íris se deita
Na paisagem do sertão
Mote de: Fátima Marcolino
Glosa de: Pedro Fernandes – João Pessoa. 22/07/2008.
O espelho impassível me revela
Com estou depois da mocidade
Não quero acreditar mas é verdade
Em cada cicatriz uma seqüela
Fico sério a expressão se congela
Se rio mostra a falta de pujança
O queixo dividido se balança
Dois riscos meu pescoço rodeou
A navalha do tempo retalhou
Minha face rosada de criança.
Se eu pudesse mantinha a aparência
O vigor dessa tez com formosura
O viço da pele, e essa candura
E os traços expressando inocência
Inexistia qualquer eflorescência
Não deixava ferir-lhe qualquer lança
Com o destino faria uma aliança
não mostrar as rugas que criou
A navalha do tempo retalhou
Minha face rosada de criança.
Vejo sulcos assimétricos espalhados
Das maçãs do meu rosto para a testa
Quando o trem da vida desembesta
Marcando passageiros embarcados
Os que não resistirem, são jogados
Para fora do vagão que não alcança
A estação da velhice onde se cansa
Com o peso da bagagem que juntou
A navalha do tempo retalhou
Minha face rosada de criança.
Pedro Fernandes.
Minha classe social
Bem diferente da sua
Voce morando na rua
E eu na zona rural
A diferença abissal
pra um pebleu sonhador
Sem culpa da minha cor
com sentimento antagônico
Mil perdões se fui platônico
Em sonhar com seu amor.
Eu sonhei até o dia
que me enchi de coragem
E caprichei na linguagem
pra dizer que lhe queria
o meu balaio de alegria
virou contêiner de dor
seu desdém arrasador
me deu um não tão lacônico
mil perdões se fui platônico
em sonhar com seu amor.
Eu escrevi um poema
Com uma nódoa de mágoa
o tempo que tudo enxágua
mas desbota quem blasfema
rejeição sempre foi tema
que maltrata o cantador
fui salvo por benzedor
com chá de pó amazônico
mil perdões se fui platônico
em sonhar com seu amor.
Mote: Wellington Vicente
Glosa: Pedro Fernandes
João Pessoa, 27/08/2008 – Dia do Psicólogo
Eu não creio na pessoa
que não se apega ao seu chão
nem abra seu coração
para as lembranças das "boa"
dos balanços de canoa
um copinho de geleda
de tardezinha a pelada
no oitão de Dona Diva
no mundo não há quem viva
sem ter saudades de nada.
Tomar um "rabo de galo"
pra queimar uma caieira
tome fogo a noite inteira
chega a lenha dava estalo
Rezava pra São Gonçalo
pra ter êxito na queimada
e no fim da madrugada
mãe sentava pensativa
no mundo não há quem viva
sem ter saudades de nada.
Os irmãos com quem brinquei
tomando banho em riacho
Tantas pitombas no cacho
que sorrateiro eu tirei
mangas maduras chupei
tanto rosa como espada
camisa toda melada
e fiapos na gengiva
no mundo não há quem viva
sem ter saudades de nada.
Mote do poeta: Zé Vicente
Glosa: Pedro Fernandes - João Pessoa, 29/08/2009.
Um abraço, Marcos Maia, grande poeta !!
Alô poeta !!! Veja esse mote de Fátima Marcolino!!!
A sua falta é sentida
Do nascer ao por do sol
A noite sem seu farol
Fica mais escurecida
Foi muito triste a partida
Porque nem se despediu
Meu peito uma dor sentiu
Com tamanha intensidade
Voce não mede a saudade
Que deixou quando partiu.
A cada dia que passa
cuias de lágrimas se lançam
Dos olhos que não se cansam
De fazer uma devassa
Na sua foto, que a traça
Boa parte destruiu
De furos fez bem uns mil
Só tá visível a metade
Voce não mede a saudade
Que deixou quando partiu.
Meu caçuá de lembrança
Pesa dez vezes meu peso
No meu lombo ele vai preso
Mas carregá-lo não cansa
Nesse passo de dança
minha mente admitiu
Aquele silencio que ouviu
Vinha da eternidade.
voce não mede a saudade
que deixou quando partiu.
Mesmo noutras dimensões
O que sinto voce sente
Porque há uma corrente
Transmissora de emoções
Liga nossos corações
Que se energizam sem fio
O amor não diminuiu
pela invisibilidade
Voce não mede a saudade
Que deixou quando partiu.
Glosa de : Pedro Fernandes
João Pessoa, 02/10/2008.
Saudações poéticas, Josa.
Criança é ingenuidade
Símbolo nobre de pureza
semente que a natureza
semeia na humanidade
sem manchas de vaidade
sem orgulho, ódio ou rancor
suave como uma flor
perfumada do jardim
foi Deus que a fez assim
anjo fonte de amor !!
Pedro Fernandes
O bolso cheio de bola
de gude para jogar
um alçapão pra pegar
a patativa de gola
e lhe prender na gaiola
ouvir seu canto dolente
eu também era inocente
sem culpa do que fazia
Oh meu Deus como eu queria
ser criança novamente.
Apelidava seu Chave
chamando-o de caboré
ele tirava o boné
corria atrás com a trave
nao era uma falta grave
Depois que ficou doente
Tão saudoso como a gente
chorava quando me via
Oh meu Deus como eu queria
ser criança novamente
Rodar pinhão na ponteira
brincar com vaca de osso
E tomar banho no poço
amossegar jardineira
na subida da ladeira
sem temer um acidente
Gritar em culto de crente
E pela janela cuspia
Oh meu Deus como eu queria
ser criança novamente.
Uma vizinha enjoada
trouxe feijão do roçado
e num dia ensolarado
espalhou pela calçada
para não ser espalhada
tocalhava atentamente
gritou comigo somente
porque por cima eu corria
Oh meu Deus como eu queria
ser criança novamente.
No mês de senhor São João
Eu carregava a roqueira
Juntava uma cabroeira
Comandava o pelotão
Pra ir até o oitão
De Dominga impaciente
cada pipoco extridente
com medo ela se benzia
Oh meu Deus como eu queria
Ser criança novamente.
O tempo é uma moenda
Que tudo na vida esmaga
O tempo bom ele apaga
no tempo ruim ele emenda
mas é pra que se aprenda
ser um Ser mais consciente
Saber que a vida é presente
E agradecer todo dia
Oh meu Deus como eu queria
Ser criança novamente.
Pedro Fernandes.
João Pessoa, 12/10/2008.
Hoje é dia do poeta
Esse ser puro sensível
Que enxerga o invisível
Com sua rima discreta
Sonha, delira, vegeta
Se sente dor anuncia
Mas chora de alegria
Na religião do verso
Declama pra o universo
No templo da poesia.
No pilar do sentimento
Ele edifica o poema
os afagos de Iracema
lhe servem de linimento
À noite, a lua e o vento
Despertam nele a saudade
Fere a sensibilidade
E faz brotar da ferida
buquê de rima florida
perfumando a humanidade.
Seu mundo é a natureza
O amor é seu garimpo
O sertão é seu olimpo
É diplomado em pureza
Seu patrimônio a pobreza
A vida é a sua escola
Seu instrumento a viola
Inspiração seu diploma
Divino dom, ninguém toma
Se fracassa, Deus consola.
Pedro Fernandes – João Pessoa, 20/10/2008.
Parabens pelo dia do poeta, poeta Josa.
Um abração.
Dia de finados
Mal havia o sol nascido
Vem o coveiro abre a porta
é seu jardim, sua horta
cada palmo é conhecido
já tinha pintado, varrido
essa lixeira de gente
por cima tão reluzente
mas por baixo putrefata
tanto faz um magnata
como um ser pobre indigente.
Eu fui visitar a cova
Onde sepultaram pai
Um pingo de vela cai
No pé da cruz semi nova
As flores servem de prova
De quem lhe tinha amizade
Sentei-me no pé da grade
Ouvia o povo rezando
Meus olhos iam minando
Duas lágrimas de saudade.
Vi uma mãe que chorava
Encostada num jazigo
Na mão um retrato antigo
do filho que tanto amava
a cada olhada que dava
Um soluço escapulia
O seu olhar traduzia
Saudade, dor, sofrimento
seu véu tremulava ao vento
como quem se despedia.
Um cruzeiro de granito
No centro do campo santo
Uma viúva com um manto
Reza um pai nosso contrito
Outra puxando um bendito
Uma mocinha com um véu
Os homens tiram o chapéu
Em respeito ao ambiente
O sol passa indiferente
Na passarela do céu.
Um viúvo ajoelhado
Escorado numa cruz
“fumo” no bolso conduz
Revela o luto guardado
Olha a cruz resignado
Se ver que por dentro chora
Mascara o pranto por fora
Reza a oração final
Conclui no pelo sinal
Se levanta e vai embora.
Com três anos de idade
Criança brinca, contente
Sua atitude inocente
Nos braços da orfandade
Sem noção da eternidade
Diz: mamãe foi viajar
Esperando ela voltar
Pensa que a mãe se esconde
Lhe chama,ela não responde
Com medo põem-se a chorar.
Era um dia de finados
Visitas ao cemitério
No chão que guarda mistério
Onde corpos transformados
os ossos são misturados
Fêmur, ilíaco, patelas
Escápula, ulnas, costelas
Tíbias, rádios, perônios
Vértebras e diversos crânios
Quem seriam donos delas?
É neste ambiente hostil
Fúnebre, sombrio e triste
Só flor de saudade existe
Ao seu redor reuniu
Quem a mesma dor sentiu
Em níveis tão variados
Pais, mães, filhos amados,
Irmãos, esposas, maridos
juntos choram comovidos
Hoje é dia de finados.
Pedro Fernandes de Araújo.
Tomei leite de jumenta
mãe queria me ver forte
no pescoço pra dar sorte
uma medalhinha benta
me banhei n'água barrenta
no período do verão
eu temperava o feijão
só com pimenta de cheiro
Eu fui menino roceiro,
nas quebradas do sertão.
De manhã ia à escola
pedalando uma magrela
o lanche era mortadela
com suco de graviola
no recreio jogava bola
na volta com meu irmão
sempre tinha discussão
quem ia no bagageiro
Eu fui menino roceiro
nas quebradas do sertão.
Ia com pai pra o roçado
quando a chuva começava
enquanto ele cavava
eu plantava com cuidado
o grão de milho contado
quando jogava no chão
completava a plantação
cobrindo a cova ligeiro
eu fui menino roceiro
nas quebradas do sertão.
Mote: Abel Araújo
Glosa: Pedro Fernandes.
Um abraço, poeta.
Me alimento de lembrança
Me divirto no delírio
Misturo lágrima e colírio
No colo da esperança
A rede que me balança
leva à ociosidade
ouço a voz da liberdade
dizendo não se isole
todo dia bebo um gole
da cachaça da saudade.
Viajo num nevoeiro
Com destino ignorado
Sedento e amargurado
Sem amor e sem dinheiro
Sempre acho um companheiro
Com a mesma enfermidade
No brinde da lealdade
O nome dela escapole
Todo dia eu bebo um gole
Da cachaça da saudade.
Todo dia eu vou na rua
Do bairro onde ela morava
E nosso encontro se dava
Só na presença da lua
Hoje essa ausência sua
É fonte de ansiedade
Outra ofertou-me amizade
Eu respondi não me amole
Todo dia eu bebo um gole
Da cachaça da saudade.
Mote: Raphael Mour
Glosa: Pedro Fernandes.
O juiz: a consciência
O réu: é esse poeta
A vítima: paixão secreta
O crime: pura insistência
Atenuante: a inocência
De um boêmio apaixonado
Que hoje vive calado
seu remorso é o promotor
No tribunal do amor
Sou o réu e sou culpado.
O fogo da mocidade
Queima as páginas da razão
Me fez cometer traição
Pra alimentar vaidade
Na frivolência da idade
A induzi ao pecado
Depois que foi consumado
me senti um vencedor
No tribunal do amor
Sou o réu e sou culpado.
Quando casei com Estela
Lhe jurei amor eterno
Sob o rótulo de moderno
Arranjei outra além dela
Num folhetim de novela
Sem script decorado
Errei por ter misturado
O artista com o autor
No tribunal do amor
Sol o réu e sou culpado.
Mote: Josemar Rabelo
Glosa: Pedro Fernandes.
João Pessoa, 25/11/2008.
Poeta, eis o que pude produzir.
Um abração.
O ano velho se finda
O ano novo começa
No “reveion” se despeça
Numa cerimônia linda
Que seja a “era” bem-vinda
Trazendo paz, união
Na terra passe um borrão
E apague toda tristeza
Que castigou a pobreza
Sofrida do meu sertão.
Esse povo humilde e forte
Não pede presente caro
Mas precisa de amparo
Das armadilhas da sorte
A seca, arena da morte
Mina sua resistência
Os ladrões de consciência
Na alma lhe deixa mágoa
Lhe negam direito à água
Tiram sua independência.
Deus pode dar um jeito
Atendendo esse pedido
Que seja um ano chovido
Mas de inverno perfeito
O rio correr no leito
Sem a ira da enchente
ver prosperar a semente
Satisfazendo esse povo
Que espera do ano novo
Boa safra de presente.
Pedro Fernandes - João Pessoa, 28/12/2008.
Voce subiu na calçada
espiou pela janela
como o rastro revela
não adentrou na morada
não chamou, nem disse nada
como quem quer e não quer
se outra chance tiver
do terreiro voce grita
eu agradeço a visita
e volte quando quiser.
Um abração, poeta!!!
JOSEMAR RABELO, SEM ÓDIO E SEM MEDO
sábado, 13 de março de 2010
VERSOS DO POETA REV. BRÁZ IVAN
Terra amada torrão onde meus pés
Se aprumaram pra meus primeiros passos
Testemunha de glórias e fracassos
Vitimada por mil secas cruéis.
Mas, pra nós sertanejos, inda és
Dos rincões, o mais belo e mais lembrado
Por seus filhos poetas, decantado
Para todos és chão, terra e auxílio
E pr’aqueles que vivem no “exìlio”
És lembrança chorosa do passado
Como posso esquecer as madrugadas
Nas moagens de cana nos engenhos
Tantas lutas, fadigas e empenhos
Das debulhas de milho nas latadas
Das bonitas manhãs ensolaradas
Adjuntos nas limpas de algodão
Buscas d’água num poço com galão
Almoçar feijão-verde com torresmo
Quem viveu essas coisas? Fui eu mesmo!
Nos meus anos de ouro no Sertão.
Quem não cala nas tardes sertanejas
Para ouvir o lamento do carão
Alternado no canto do cancão
Como fossem poetas em pelejas
Os badalos dos sinos nas igrejas
Convidando o caboclo a se benzer
O vermelho do sol no entardecer
Ir morrendo pras bandas do poente
Num teatro que Deus fez para a gente
Assistir esperando anoitecer.
Quando a noite, qual manto de viúva
Vem pintar o Sertão de negras cores
Aparecem os noturnos atores
Sapo, briba, guará, peba e saúva
Um matuto deitado, escuta a chuva
Que cai mansa nas telhas da palhoça
Quando o vento enfraquece, a chuva engrossa
Pensa então o caboclo emocionado:
Se eu pudesse ia agora pru roçado
Começar preparar a minha roça.
Meu Sertão, minha terra, meu regaço
O meu verso não é suficiente
Pra cantar o teu solo, a tua gente
Que trabalha e resiste sem cansaço
Não se assombra com seca nem mormaço.
Um cenário que Deus arquitetou
Eu aqui do lugar aonde estou
Apesar do progresso e do barulho
Mando um verso falando do orgulho
De Ser Tão sertanejo quanto sou.
Bràs Ivan
Também nasci no sertão
Onde o sol nasce bonito
Onde a terra é seca e quente
E rimar é quase um rito
A musa que beija a face
Beija tres vezes quem nasce
Em São José do Egito.
(Brás Ivan)
Josemar recebi sua mensagem
Meu irmão, com o coração em festa
Aprendi que essa vida aqui só presta
N'alegria e na camaradagem
Ontem mesmo sonhei com a viagem
que farei ano próximo Deus querendo
Mas parece que eu já estou vendo
Eu e tu e mais outros camaradas
Misturando cachaça com toadas
Poesia subindo e "mé" descendo
(Reverendo Braz)
Poeta quando eu voltar
Prepare fígado e mente
Deixe o que está fazendo
Vamos tomar aguardente
Garanta já o seu canto
Deixe que o resto eu garanto:
Cachaça, amigo e repente.
(Brás)
23 de julho poeta, o pajeu vai ser pequeno!!!
A gente bebe na rua
Pra mostrar que a gente é macho
Assim que eu ai chegar
Pode deixar que eu te acho
Depois que tu me saudares
A gente sai pelos bares
De "Bom Jesus" à Riacho.
(Braz)
Pra chorar encontrei outro motivo
Quando achei do engenho a velha porta
No oitão uma ingazeira morta
Decretava o fim definitivo
Cabisbaixo, tristonho e pensativo
Vim embora de novo pra cidade
Recordar é viver! Isso é verdade
Não poder viver mais é que não presta.
No lugar do engenho hoje só resta
Os escombros de dor e de saudade.
Do engenho herança dos meus pais
Do qual eu deveria ser herdeiro
Restam só os tijolos do bueiro,
Alguns cacos de telhas, nada mais.
Lá num canto de cerca ainda jaz
A moenda sem mais utilidade
Me responda poeta por bondade
Se existe tristeza como esta.
No lugar do engenho hoje só resta
Os escombros de dor e de saudade.
Eu quase me esquecia
Mas você rapidamente
Me advertiu dizendo:
Poeta cante pra gente!
Vou atender seu apelo
Que o sobrenome Rabelo
E sinônimo de repente. (Braz Ivan)
De Onde Meu Verso Nasce
Meu verso nasce enrolado
Nas ramas da gitirana
Depois que nasce o amarro
Com tira de imburana
Não faltam tiras nem versos
Sete dias por semana.
Eu vendo um rolo de cana
Se transformar em bagaço
Um vaqueiro destemido
De gibão, perneira e laço
Misturo tudo com rima
Nos muitos versos que faço.
E quando sinto o mormaço
No pingo do meio-dia
Uma cigarra estridente
S’acabando em cantoria
Pego os dois ingredientes
E transformo em poesia.
Quando o bacural vigia
Na cabeça da estaca
Um caçote perde a vida
Na presa da jararaca
Eu sinto que um verso nasce
E no meu peito se ataca.
Enquanto na arataca
Um preà se aperreia
Um bode “trupica”e cai
Por estar preso na peia
Sinto um magote de verso
Correndo na minha veia.
Enquanto na roça alheia
Menino rouba goiaba
A nuvem roxa de inverno
`As aguas do céu desaba
Eu colho versos da fonte
Cheia que nunca se acaba.
O cheiro forte da baba
D’uma vaca remuendo
Uma torre no nascente
Se no sertão ta chuvendo
Sinto na roça da alma
Um verso novo nascendo.
Quando vem amanhecendo
No terreiro da cozinha
Eu vendo um galo pedrez
Correndo atràs da galinha
Até isso entra em meus versos
Dando graça a rima minha.
Ainda de manhãzinha
Mâe preparando o café
Meu pai batendo a enxada
Vovô cheirando rapé
Vendo essas coisas me inspiro
Faço verso sem dar fé.
Pescando de jereré
Caçando de baladeira
Pastorando a criação
Me balançando em porteira
Somente lembrando disso
Faço verso a tarde inteira.
Brocando uma capoeira
Esperando as trovoadas
Ouvindo um vaqueiro velho
Rouco cantando toadas
Assim comecei fazer
Minhas estrofes rimadas.
Enquanto nas madrugadas
Caçava peba e tatu
Com fogo, fumaça e vara
Eu derrubava um enxu
Lavava a alma com versos
Nas aguas do Pajeu.
E quando o mandacaru
Nos dava a flor da esperança
A seca ia-se embora
Dando lugar a bonança
Eu rabiscava sem jeito
Os meus versos de criança.
Quando era noite de dança
Atravessava os riachos
Para ver as sertanejas
Com lindas tranças e cachos
Melodiava meus versos
No toque dos oito-baixos.
E quando os ferventes tachos
Borbulhavam nas moagens
Deus bendizia com chuva
Altos, baixìos e vàrgens
Eu jà descrevia em versos
Essas bonitas imagens.
E quando as cinzas paisagens
Denunciavam o estio
Eu na luz de um candeeiro
De lata, gàs e pavio
Cantava a terra rachada
Do leito seco do rio.
Um sertanejo bravio
Num serviço de emergência
Uma mâe com doze filhos
Sofrendo com paciência
Faziam com que meu verso
Ganhasse forma e essência.
Quando as mãos da Providência
Tinham compaixão do povo
Mandava chuva na terra
Como sinal de aprovo
Sentia um verso na alma
Começar nascer de novo.
Pra festa de ano novo
Quando pai caiava a casa
Mâe estirava o vestido
Num velho ferro de brasa
Sentia a rima crescendo
E o verso criando asa.
Quando na cacimba rasa
A seca prenunciava
Que estaria chegando
Sem dizer quando voltava
Eu sentia que calada
A minha alma rimava.
E quando a rama da fava
Marcava o cabão de milho
Um cheiro invadia a sala:
Angu, pamonha e sequilho
Assim nasceu meu repente
E disso meu verso è filho.
Ao ouvir um trocadilho
Do poeta lourival
Um padre fazendo verso
Na vigilia de natal
Dizia: quando eu crescer
Quero fazer um igual.
Vendo uma velha rural
Servindo de lotação
A vìrgem sendo exaltada
Num poema de Cancão
Nasceram assim no meu peito
Um monte de inspiração.
E quando a televisão
Não tinha lugar na sala
Vovò contava anedotas
Jà velha usando bengala
Ao lembrar disso minh’alma
Faz verso, soluça e cala.
E quando uma rosa exala
Cheiro excitando a abelha
Um pingo de chuva entra
Por uma brecha da telha
Faço um verso tão sofrido
Chega a rima saia vermelha.
S’a derradeira centelha
Do sol morre no poente
E o negrume da noite
Envolve o sertão da gente
Escuto a alma agitada
Gemer parindo repente.
E quando da terra quente
Se levantava o mormaço
Com um feixe de ração
Pesando em meu espinhaço
Eu fazia um verso inteiro
Rimando cada pedaço.
Assim o verso que faço
Nasceu aonde eu nasci
Bebeu a agua barrenta
Do barreiro que bebi
E comeu o xerem quente
Com leite como eu comi.
Os versos que eu pari
Nunca chamarei de meus
Porque sò fiz o retoque
E alguns detalhes seus
Fiz eu o acabamento
Quem criou mesmo foi Deus.
Não os quero nos museus
(Passa-Tempo de granfino)
E nem ornados em ouro
Escritos em papel fino
Os quero escritos somente
Na alma do nordestino.
(Brás Ivan)
Desafio entre o Reverendo Brás e João Rolim
Brás
João Rolim tu tens sido até feliz
Nas pelejas que tens participado
Mas, comigo o rojão é mais pesado
Já passei do meu tempo de aprendiz
As proezas que até agora fiz
Dão a prova de minha competência
Reconheço a sua inteligência
Mas, não corro, não temo nem vacilo
Se quiser pelejar diga o estilo
Ou o tema de sua preferência.
João
Eu não sei qual a tua sapiência
Mas terás o castigo que mereces
Pegue o terço e comeces tuas preces
Pois de mim não terás sobrevivência
Já tomei a devida providência
Pegues leite e mistures com mastruz
Sou carrasco coberto com capuz
Vim trazendo mil galhos de urtiga
Pra fazer tu secares a bexiga
Vou te dar três lapadas numa cruz
Brás
O teu verso é opaco, o meu reluz
Tua rima é quebrada, a minha inteira
Já venci no repente Zé Limeira
Otacílio Batista e Zé da Luz
Tu terás que comer muito cuscuz
Pra fazeres um terço do que fiz
Derrotei Lourival, Dimas,Diniz,
Xudu, Pinto, Cancâo, Jó e Valdir
Vila-Nova, Amâncio e Moacir.
E eu era somente um aprendiz.
João
Nossa! Nunca fiquei, assim, feliz
Com trezentos mil nomes de poetas
Menestréis, pais das rimas mais completas
Nossos deuses de versos de raiz!
Tão mais fácil serei a geratriz
Colocando teus versos lá pra trás
É melhor, pois ganhando de "seu" Brás
Serás tu, mais trezentos mil perdidos
Vão ficar todos loucos, sacudidos
Com mal sonhos, comigo, o ferrabrás!
Brás
Vou mostrar a você como se faz
Desafio em Martelo Agalopado
Quem estuda comigo sai formado
Com mestrado nas rimas principais
Os alunos, porém, não são iguais
Nem maiores que os mestres do repente
Pra você respeitar minha patente
Vou lhe dar uma surra extravagante
Pra você aprender de hoje em diante
Nunca mais afrontar cabra-valente
João
Sou Netuno, do mar, com meu tridente
Castigando tu'alma de bastardo
O maior dos felinos: leopardo
Que te ataca com sangue no meu dente
Sou o sol que renasce no oriente
E sou lua se pondo do outro lado
A patente que tens é de soldado
Já eu sou o maior dos generais
Sou, das rimas, o pai de todos pais
Tu és filho e serás meu deserdado
Brás
Dos poetas que têm me enfrentado
Dois deixaram o Brasil rapidamente
Um deixou de cantar e virou crente
Um deixou a mulher virou viado
Dois ficaram sem voz, um aluado
Hoje pede esmola na esquina
Três deixaram a terra nordestina
Peguei um "poetinha" amador,
Dei-lhe tanto um dia em Salvador
Que correu, foi morar em Teresina.
João
Capei um, de machão, virou menina
Descambei seu reinado faz-de-conta
Não aceito nenhuma desafronta
E o poeta aprende essa doutrina
Eu prescrevo-te dose de morfina
Pra acabar com a dor que te agonia
Eu comi teu sobejo de poesia
Digeri e caguei tudo rimado
Nesse chão vou deixar tudo adubado
Pra nascer minha bela dinastia
Brás
Teu reinado eu já sei como seria
Um castelo pequeno de areia
A rainha, uma rapariga feia
A princesa uma puta da Bahia
Um cavalo-de-pau por montaria
General, um cachorro vira-lata
Por exercito uma praga de barata
Refeição será bosta de besouro
Quatro "bilas" quebradas o teu ouro
Um rebôlo de pedra a tua prata.
João
Rapariga, donzela, até beata
Todas provo, com fúria e com paixão
Meretriz da Bahia ou Maranhão
São acordes pra minha serenata
Sou cavalo-de-pau que se desata
Um cachorro-sem-dono a viajar
Sou barata que vai te envenenar
Alquimista com prata em toneladas
Transformando teus versos em latadas
E latadas num belo recitar
Brás
Sou as cores do manto de Iemanjar
Sou o traço da linha do Equador
Sou a ponta do bico do condor
Sou a luz prateada do luar
O gemido da ema a soluçar
Contemplando as centelhas do sol posto
Para vate pequeno e indisposto
Ou pseudo-poeta como tu
Sou malvado que nem mandacaru
Não lhe sombra fresca nem encosto
João
Sou poeta, sou teu sincero oposto
Rezo às graças de Nossa Mãe Maria
A Jesus, eu pra sempre cantaria
A Satã, jogo pragas no seu rosto
Jogo o doce no mar, mudando o gosto
E depois tempestade no sertão
Sou a lava explodindo do vulcão
Injeção pra curar qualquer doença
Minha marca que trago de nascença
É bater em poeta fanfarrão
Brás
Com poetas da tua posição
Pelejar é jogar verso no mato
Não consegues fazer um verso exato
Faltam métrica, rima e oração
Um poeta da minha condição
Cuja rima é perfeita, o verso belo
Nem devia escutar esse donzelo
E deixar que o povo lhe esqueça
Onde diabos estava com a cabeça
Quando te convidei para o duelo?
João
Vou marchando e teus versos atropelo
Como cinco mil homens numa guerra
Essa briga, veremos que se encerra
Quando tu se quebrares em farelo
Eu cansei de tua rima e te afivelo
Passo a rédea, castigo e deixo manco
Dou-te uns chutes certeiros no teu flanco
Que até hoje, tu mijas puro sangue
Faço para que todo o povo mangue
E só chorem de rir quando te espanco
Brás
No meu time você fica no banco
Sem direito a chutar nenhuma bola
Serás sempre reserva e eu cartola
Serei sempre estrada e tu barranco
Onde quer que te escondas te arranco
Onde quer que tu corras vou atrás
Vou lhe dar uma surra tão voraz
E depois do serviço concluído
Tu dirás orgulhoso e comovido
Minha gente, hoje apanhei de Bràs!
João
Sou o tiro de cruz no satanás
Meteoro caindo no teu bucho
Sou a 12 cheinha de cartucho
Disparando na frente e por detrás
Sou valete, rainha, rei e ás
Dum baralho, marcado e bem certeiro
Sou a benção almejada por romeiro
Quando reza uma prece a Padim Ciço
Sou o vinho francês, queijo suíço
Cascavel com meu bote traiçoeiro
Brás
A cigana roubou o teu dinheiro
Predizendo teu dom de menestrel
Tô pensando que essa cascavel
Não agüenta meu carcará guerreiro
Vou lhe dar uma chance companheiro
De correr antes que você se acabe
Você quer um lugar, mas, não lhe cabe
No partido dos grandes do repente
Vá passar anador pra dor de dente
Deixe aqui, cantoria pra quem sabe.
João
Deixa tu, e meu verso leia e babe
Pois voltei com mais força que Sansão
Sou Rolim, meu primeiro nome é João
Corra logo, antes que você desabe
Todo grito de dor bem mais lhe cabe
Zé Limeira uma vez me disse bem:
"João Rolim, esse Brás não é ninguém
É melhor tu parar, se não Brás chora
Não mais perca seu tempo, vá embora
Pois tu és cantador pra mais de cem"
Brás
Joao Rolim você sabe muito bem
Que comigo o buraco é mais embaixo
Tenho verso guardado e desencaixo
Faço os meus e empresto a quem não tem
Mas, você se atraveu fazer desdém
Numa frase que Limeira propôs
Es mais fraco que água de arroz
O teu verso é suado e sem sentido
Se Limeira não tivesse morrido
Meteria o cacete em todos dois
João
Tu conhece, seu Brás, carro-de-bois,
Que se vê no sertão de meu nordeste?
Pois eu sou um vaqueiro tão da peste
O melhor, com certeza, de nós dois
Pois afirmo, pro mundo, que não sois
Nem mugido que dá esse animal
Aliás, eu menti, tu, afinal
És um deles, que puxa a chicotadas
Dou-te pisa sem medo das chifradas
E tu levas, e eu João, vou magistral
Brás
Eu conheço de certo esse animal
Não me ofende uma tal comparação
Já que os bois são a força do sertão
E motores da industria rural
Já você também mora no curral
Mas tem outra função e outro plano
Passa o dia no pasto sem ter dano
Sendo que o que dais por serventia
Cinco litros de leite em cada dia
E um bezerro parido todo ano.
João
Eu já soube que és paraibano
Da cidade que brota cordelistas
Mas não chegas aos pés do teus artistas
Pois nas rimas, pra ti, sou desumano
Sou cearense-soteropolitano:
Da Bahia amada onde eu nasci
Pôs-me forte sua tribo Guarani
Sob o sol escaldante eu me criei
Mas meu versos, seu Brás, eu lapidei
Nas belezas do belo Cariri
João
Brás
João Rolim eu agora entendi
Que brigar com você é sem futuro
Toda vez dou de cara contra o muro
Pois rimar ruim assim eu nunca vi
Faça um curso intensivo por ai
Depois marque comigo uma porfia
Te ensino também geografia
Pra saber Pernambuco aonde è
Que eu nasci, cabra besta! em São José
Capital mundial da poesia
João
Aprender matemática, agronomia,
Ou história, ciências e francês
Estudar geometria, português
Bioquímica e até filosofia
Isso tudo, querendo eu bem faria
Sem suar, só por pura brincadeira
Mas escola da trova condoreira
Não se vê em qualquer rincão perdido
Pois aqui o seu verso é suprimido
Por matuto da brenha catingueira
Brás
O meu verso se inspira na rendeira
De mãos grossas rendendo a branca lã
No orvalho gelado da manhã,
É mais quente que boca de caieira
E você não achando uma maneira
Para ao menos de longe me seguir
Começou a tentar me agredir
Dando coice e rinchando como um jegue
Me afrontar,tudo bem, você consegue
Me vencer, é difícil conseguir.
João
Tudo bem, eu não vou mais te ferir
Já que tu não consegues segurar
Eu começo outro verso pra brincar
Só espero que largues de mentir
Pois comigo não vais sobressair
Sente aí, aprecie o cantador
Há mil anos que faço a tua dor
Já que sou o bisneto dos três "pês"
Eu herdei de Joaca* o que tu lês
Não confundas mal-feito com primor
Brás
Posso até respeitar o teu valor
Se fizeres um verso com sentido
Porém tudo de teu que tenho lido
È sem cheiro, sem forma e sem sabor
No teu verso também eu quero por
Cinco letras: um "D" de duvidoso
Acrescento um "V" de vergonhoso
Eis aí a razão por que me temes:
É por que o teu verso tem 3 "Émes"
Mutilado, medíocre e mentiroso.
João
Eu achei o teu verso duvidoso
Pois falaste de três "émes" completos
Pode vir com antigos alfabetos
Que eu até fico mais que curioso
Mas os "pês" de meu verso astucioso
São honrados por todo meu parente:
Pegues, passes, pareças pertinente
Pois, pateta, precisas pesquisar
Poetinha pedir pra pelejar?
Porque paras, perdido plenamente?
Brás
Com você tenho sido complascente
Mas,agora acabou a brincadeira
Ou você se apruma na fileira
Ou se lasca comigo no repente
Vai ser esse o rojão daqui pra frente
Eu na frente e você correndo atrás
Você tenta, se esforça mas, não faz
Acordado o que eu faço dormindo
Tô chegando e você nem tá partindo
Sento aqui e te espero um pouco mais.
João
Teu navio não se ancora neste cais
Dos mais belos, temidos do repente
Eu nasci lá na terra do sol quente
Meus cordéis são maiores e imortais
Tu verás nestes teus tempos finais
Que poeira é seu único companheiro
Pois eu sei que és último e eu primeiro
Sou maior, seu cabrinha, sai daqui
Tenho a força da tribo Kariri
Que criou minha rima em Juazeiro
Brás
O meu verso forjei no tabuleiro
Cada estrofe que faço é de um talho
Já a sua é feita de retalho
Até hoje não vi um verso inteiro
Me rebaixo pra ser seu companheiro
Mas você nem assim me acompanha
Quanto mais se esforça mais apanha
Vai à missa, se benze e faz promessa,
Ler romance,cordel,se interessa,
Pra ganhar a peleja,mas, não ganha.
João
Essa tua frescura não me arranha
Pois eu sou cordelista muito macho
Colho versos que nascem neste cacho
Da mais bela natura da montanha
Saiba, Brás, que comigo é na inhãnha*
Meus retalhos são mais que os teus vestidos
Pra cabrinhas mal-feitos e exibidos
Que vieram pensando em pelejar
Vá de reto e aprenda qual seu lugar
Pois aqui seus martelos são feridos
Brás
È tortura demais pra meus ouvidos
Essa tua cantiga retalhada
Parte bem, mas, bem perto da chegada
Se ver logo uns três versos perdidos
Os teus erros são todos conhecidos
São de métrica, rima e oração
Apesar disto tudo ainda são
Sem sentido, sem pé e sem cabeça
Até hoje não vi um que mereça
Um minuto de minha atenção
João
Eu confesso: teu verso é sem noção
Nunca esteve entre os grandes do repente
No Martelo eu sou muito mais decente
Já tua sina é viver na contramão
Sou a fúria carnívora do leão
Que trás sangue por entre suas presas
Avoante que vê todas belezas
Lá de cima, num vôo ao firmamento
Tenho o verso mais lindo em nascimento
Enfeitado com mantos de riquezas
Brás
Vou agora somar tuas fraquezas:
Verso torto quebrado pelo meio,
Rima fraca franzina sem recheio,
Orações sem contexto e sem belezas.
Se não fosse umas duas safadezas
Entre os versos os dismetrificando
As estrofes seriam como um bando
De elefantes na loja Cristal
É assim o teu fraco recital
É assim que até hoje vens cantando
Dinheiro do Santo
Nosso sertão tem histórias
Que até o diabo duvida
De desventuras, de glórias,
De coisas da outra vida.
Essa que eu vou contar
Aconteceu num lugar
Pequenino,pobre e feio
Porém de gente decente
De cabra honesto e valente
Era Riacho do Meio.
Naquele tempo o distrito
Tinha uma igreja pequena
Para se cantar bendito
No mês que tinha novena
O povo todo acorria
Quando a igreja abria
E alguém o terço puxava
Outro levava um dinheiro
Para o santo milagreiro
E aos seus pés depositava.
Um frade tinha doado
À capela do distrito
Um santo muito afamado
Por nome São Benedito
O santo era poderoso
E logo ficou famoso
Porque mostrou muita raça
Quem rezava e lhe pedia
Nem bem da igreja saia
Já tinha alcançado a graça.
Todo tipo de promessa
O povo vinha fazer
O santo mais que depressa
Não tardava em atender
Pedido de todo jeito
Pra se livrar de defeito,
Pro ano ser bom de inverno
Moça velha se casar
Ladrão deixar de roubar
E se livrar do inferno.
O santo logo ganhou
O titulo de padroeiro
O padre a missa rezou
Para o santo milagreiro
E o povo na capela
Reza, acendia vela
Depois cantava um bendito
Para o santo padroeiro
E não faltava dinheiro
Nos pés de São Benedito.
No ano quarenta e três
Teve uma seca infeliz
Choveu um quarto de mês
Dos sertões aos cariris
E Antonio Cabugé
Que inda hoje vivo é.
Sem ver mais nuvens no céu
E a lavoura perdida
Resolveu fazer partida
De Barra de São Miguel.
E foi procurar trabalho
Logo em Riacho do Meio
Arrumou um quebra-galho
Para fazer um esteio
E foi por ali ficando
Sempre,sempre trabalhando
Todo serviço enfrentava
Lutava a semana inteira
Quando era dia de feira
Umas cachaças tomava.
Antonio era um rapaz
Que lhes dizer eu preciso
Não era doido demais,
Nem tinha muito juízo
Mais era trabalhador
Honesto e respeitador
Todos lhe queriam bem
Era bem visto na rua
Tomava a cachaça sua
Sem fazer mal a ninguém.
Quem parte do cariri;
Um lugar que chove pouco
E vem parar por aqui
Só pode ser mesmo louco.
Pois se lá è ruim que dobra
Aqui é pior e sobra
Padece da mesma falha
Pra quem vem de São Miguel
É sair do fogaréu,
Pra entrar numa fornalha.
Antonio è feito dum talho
Que hoje não se usa mais
Não tem medo de trabalho
Mandou, pagou, ele faz
Sua palavra é um tiro
Até o ultimo suspiro
Sustenta a palavra dada
Mesmo ninguém nunca viu
De norte a sul do Brasil
Antonio com enrolada.
Antonio um dia tomou
Umas bicadas a mais
Porque ele misturou
Cana com vinho São Brás
Não era de embriagar-se
Mas sem que ele notasse
Perdeu o rumo dos astros
E fico na ocasião
Como se diz no sertão:
Fazendo dum pé, dois rastros.
Antonio então resolveu
Que queria outra bicada
Porem logo percebeu
Que no bolso, tinha nada
Ficou meio encabulado
Porque já tinha alisado
E não tinha uma ruela
Saiu andando sem norte
E por azar ou por sorte
Se viu dentro da capela.
Quando Antonio olhou de lado
Viu a imagem do santo
E ficou admirado
Quando também viu o tanto
De dinheiro velho e novo
Que era oferta do povo
Para o santo poderoso
Nisso Antonio levantou-se
Da imagem aproximou-se
E disse em tom respeitoso:
Boa tarde cidadão
Sô Antôio Cabugè
Moro perto do grotão
Trabaio pra João Coité
Recebo toda sumana
Quero tumar uma cana
Mas tô mei disprivinido
Percibi sua bondade
E tomei a liberdade
Di li fazer um pidido:
Da pru sinhô me arrumar
Do muito cobre que tem
Cinco minrés preu tumar
Uma ali no armazém?
Podi imprestar sem sobrosso
Que sabu despois do armoço
Assim que eu receber
O meu pequeno ordenado
Podi ficar sossegado
Que eu vem aqui lhe trazer.
Comigo não tem perigo
Do sinhô num receber
Pode escrever o que eu digo
Depois espere pra ver
Se eu tenho palavra ou não
Pois daqui pru Riachão
Meu nome é limpo na praça
E se o sinhô mim emprestar
Garanto de li pagar
Di sabu que vem num passa.
São Benedito ficou
Calado e indiferente
Ele consigo pensou:
Quem cala é por que consente.
Ficou na ponta dos pés
Pegou os cinco minrés
Despediu-se gentilmente
Com o dinheiro emprestado
Entro no bar de Conrado
Tomou mais uma aguardente.
Tinha um guarda na capela
Rezando na sacristia
Escutou toda novela
Que Antonio ao santo dizia
E resolveu esperar
Se ele vinha pagar
Como tinha prometido
E depois achou por bem
Não contar nada a ninguém
Sobre o que tinha ocorrido.
Antonio voltou pra roça
Trabalhou feito um jumento
Sempre a noite na palhoça
Lembrava do juramento
E consigo ia pensando:
Eita, tá quage chegando
O dia do ordenado
Compru um sandaio prus pés
E levo os cinco minrés
Daquele homi educado.
Quando enfim chegou o dia
Que Antonio tinha marcado
Pegou a justa quantia
E partiu meio apressado
Quando foi na rua entrando
De longe foi avistando
Meio sem acreditar
Pois sim! era Cazuzinha
Seu irmão menor que vinha
Da Barra lhe visitar.
Se entreteram meia hora
Num constante blablablà
Antonio lhe disse: Agora
Fique aqui que eu volto já
Vou acertar um negoço
Pois me esquecer eu não posso
E hoje é o dia certo
Depois da conta acertada
Nós toma uma bicada
Ali no bar de Adaberto.
Quando ele ia saindo
O guarda se aproximou
Onde o senhor está indo?
Zangado lhe perguntou.
Deixe dessa veiaquisse
Não foi o senhor que disse
Que hoje pagava o santo
Pois pegue os cinco minrés
E vá botar nos seus pés
Você sabe onde è o canto.
Quando Antonio aquilo ouviu
Ficou dispranaviado
Pra igreja se dirigiu
Sem responder ao soldado
A porta tava encostada
Deu lhe logo uma pesada
Foi tabua pra todo lado
Sem que ninguém lhe impedisse
Pegou o dinheiro e disse:
Toma ai cabra safado.
Por certo você pensava
Que eu não vinha lhe pagar
Me diga se precisava
Você o guarda mandar
Cobrar essa minxaria
Saiba que essa quantia
Para mim não vale nada
Comigo você foi raso
Eu inda tava no prazo
Você que fez paiaçada.
Ao ouvir o lambassé
O sacristão perguntou
O que è isso Cabugé,
Por que a porta quebrou?
Antonio lhe disse: nada!
Eu e esse camarada
Tamu acertando uns pendido
Fique fora da manobra
Se não o cacete sobra
Também pru seu pé do uvido.
E partiu feito um leão
Pra cima de Benedito
Lhe agarrou o sacristão
Uma velha deu um grito
Juntou gente pra danado
O cacete foi pesado
Não ficou um banco em pé
Por mais gente que juntasse
Não tinha quem sigurasse
A fùria de Cabugé.
Quem chegava pra apartar
Um bufete recebia
Com raiva, pra se vingar
Com pancada respondia
E a briga ia aumentando
E sempre gente chegando
Homem, mulher e menino
Quebraram com uma vassoura
A caixa da difusoura
E toraram a corda do sino.
No meio da confusão
Quebraram a chapa de Noca
Acertaram um bufetão
Na filha de Zé de Doca
Depois rasgaram o vestido
De Zefa de zé cumprido
Inda hoje ela tem mágoa
Ligeira como um foguete
Pra se livrar do cacete
Saiu correndo de anágua.
E nisso banco voava
E na parede batia
Um deles quase acertava
Nossa Senhora da Guia
No meio da bagaceira
Um pedaço de cadeira
Acharam por bem jogá-lo
Mesmo em São Jorge, patrão
Que ficou sá o dragão
E um taco do cavalo.
Quebrou-se o confessionário
De um coice que Antonio deu
O pobre São Januário
De um golpe que recebeu
Começou a balançar
Não tendo onde se apoiar
Espatifou-se no chão
Jogaram um pau em Abreu
Trincou São Judas Tadeu
Quebrou São Sebastião.
Tinha uma imagem indefesa
De São José e Jesus
Jogaram um taco de mesa
Acertou logo na luz
Depois atingiu o santo
Foi caco pra todo canto
O fuzuê foi bonito
A santaiada quebrada
Só quem não levou pancada
Foi mesmo São Benedito.
A bagunça se desfez
Quando a policia chegou
Todo mundo pro xadrez!
O delegado frisou.
Algemaram todo mundo
Somente José Raimundo
Filho de Nhô Nicolau
Invés de ir pra cadeia
Passou foi semana e meia
Na cama do Hospital.
Liberaram cabugé
Depois de alguns contatos
Porque nenhum um doido é
Responsável por seus atos
Liberaram todo mundo
Depois também Zé Raimundo
Teve alta do hospital
Riacho do Meio aos poucos
Apesar dos muitos loucos
Ia voltando ao normal.
Indireitaram a capela
Madaram imendar os santos
Bendito louvado seja!
Dizia o povo entre prantos
Sempre entoando bendito
Louvando São Benedito
Que do furdunço escapou
Já tem outra imagem até
De Jesus e São José
No lugar da que quebrou.
O vigário novamente
Fez a inauguração
E disse:daqui pra frente
É pra prestar atenção
Quando quiserem brigar
Procurem outro lugar
Pra fazer esse serviço.
Vão bagunçar noutros cantos
Que aqui sobrou foi pros santos
Que não têm nada com isso.
Antonio voltou pra lida
Tocou a vida pra frente
Manerou com a bebida
Mas inda toma aguardente
Continua sem preguiça
Vez enquando vai à missa
Reza pra Santo Expedito,
São José do Ribamar
Mas, não quer nem escutar
O nome São Benedito.
Bràs Ivan,
Suiça, maio de 2007.
Bar sò Presta no Sertão
O povo daqui não sabe
Beber como a gente bebe
Não tem um bar na Cohab
Pra vender cachaça a plebe
Quem quiser sentir desgosto
Peça aqui um tira-gosto
Para ver o que lhe dão
Depois de aqui ter bebido
Eu hoje estou convencido:
Bar só presta no sertão.
Fiado aqui ninguém vende
Nem tem cachaça brejeira
Português ninguém entende
Somente a língua estrangeira
Viola aqui ninguém toca
Não se bebe rom com coca
Nem tem conhaque alcatrão
Por isso, eu, meu amigo
Tenho razão quando digo:
Bar só presta no sertão.
Galinha de capoeira
Ninguém sabe o que que è
Porque aqui não tem feira
Como tem em São José
Nem tem o bar de Beata
Aonde se junta a "nata"
Pra improvisar mourão
Aqui não tem repentista
E sem querer ser bairrista:
Bar sò presta no sertão.
Nada que eu admiro
Por aqui ouço tocar
De Lostiba e de Delmiro
Se quer, escuto falar
Não tem balcão de bodega
Não toca Deda do Brega
Não tem verso de Cancão
De louro,Otacílio e Dimas
E pra concluir as rimas:
Bar só presta no sertão.
Sexta-feira aqui não tem
A boate de Bigode
Açougue aqui também
Não vende carne de bode
Aqui tem alguns botecos
Mas, não tem o bar de Sheko`s
Nem o trayller: Corujão
Pra tomar duas latinhas
Depois de dançar no Binhas
Bar só presta no sertão.
Bràs Ivan,
Suiça,2006.
Eu cantando já fui fenomenal
Comecei quando ainda era menino
Bati muito no velho Zé Faustino
Açoitei Cancão, Pinto e Lourival
Ivanildo me viu e passou mal
Moacir ao me ver correu pra trás
venci mais de duzentos festivais
E Geraldo onde me ver se espanta
No lugar onde eu chego ele não canta
E o que é que me falta fazer mais
Na Igreja fiz grande intervento
Todo mundo aceitou a minha idéia
Convoquei os Concílios de Nicéia
Dois em Constantinopla e um em Trento
Só se é Papa com meu consentimento
E sou eu quem elege os Cardeais
Os discursos que Bento sempre faz
Lhes dizer a verdade agora devo.
Ele os ler, mas, sou eu que os escrevo
E o que é que me falta fazer mais.
Este ano eu fui prêmio Nobel
Acabei os conflitos da Irlanda
Pus um fim na guerrilha de Uganda
Fiz aquele inferno virá céu
E dali eu parti pra Israel
E depois reuni-me com o Hamás
Prometeram a mim viver em Paz
Sem ofensa, sem rixa e sem ataque
Amanhã parto cedo pro Iraque.
E o que é que me falta fazer mais.
(Braz Ivan)
Todo dia assim que amanhece
Eu elevo a Deus uma oração
E movido de força e emoção
Eu elevo a Deus a mesma prece:
Quem me dera Senhor que eu tivesse
Na Recife, gigante hospitaleira
Guardiã da cultura alvissareira
Capital do estado e nosso orgulho.
Ah meu Deus! se amanhã já fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Ir à praia sentir a doce aragem
Temperar a garganta com pitù
Com caldinho de peixe e sururu
Contemplando do mar sua paisagem
Ir do Pina até Boa Viagem
Pra rever a pracinha e sua feira
Ir à Igreja rezar pra padroeira
E fugir um momento do barulho.
Ah meu Deus! se amanhã ja fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Quem me dera, sem ter pressa nenhuma
Contemplar a paisagem calma e linda
Num domingo de sol na Sé de Olinda
Pra comer tapioca e tomar uma.
Ir à praia e pisar na branca espuma
E depois caminhar na orla inteira
Ver a onda gigante vir ligeira
E bater de encontro ao pedregulho.
Ah meu Deus! se amanhã ja fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Er’eu dormindo e sonhando
Que « tava » no Pajeù.
Ouvi um som parecido
Com um baião de viola
Vi um pé de castanhola
Um umbuzeiro florido
Vi um boi esmorecido, Um menino com lundu
Vi um pé de mulungu
A seca desafiando:
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú”.
Eu vi num dia de feira
Um cego desafinado
Tocando um velho teclado
Só cantando “roedeira”
Também vi na “salgadeira”
Um matuto semi-nu
Com um “quartim” de pitù
Jà quase se embriagando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Eu fui a Serra escutar
Na linda igreja da penha
O povo cantando: “Venha
Trazer paz para o meu lar”
Vi Marcolino cantar
A “Fulô do Cumaru”
“Feira de Caruaru”
Gonzagão interpretando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Me vi em vários lugares:
Afogados, Mirandiba
Calumbi e Carnaíba
Respirando doces ares,
Sempre provando em seus bares
“Tira-gosto” de tatu
Ou “tira-gosto” de umbu
Se grana estava faltando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que estava no Pajeú.
Percorrendo o longo rio
Sem barcos, mapas e setas
Encontrei vários poetas
Cantando em desafio
Vi um poeta bravio
Desafiando Xudu
Vi Dimas, jò, Zé Lulu
E Louro trocadilhando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Quase senti os odores
De muçambê e jasmim
Quase vi Itapetim
A terra dos cantadores
Vi a igreja de Flores,
Uma safra de cajo,
Ia comendo um bejù,
Mas, aì, fui acordando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Acordei e me dei conta
Que estava muito distante
Mas, inda estou confiante
Qu'esta tristeza tramonta
Verei o sol que desponta
Como fosse um príncipe nú
Quero juntar eu e tu,
E nòs no mesmo lugar.
Quero dormir e sonhar
ESTANDO no Pajeú.
Bràs, Suiça, 21 de abril de 2008
44 DE IDADE
METADE DE 88
E DOBRO DE QUANDO AFOITO
DESFRUTOU A MOCIDADE
HOJE DESFRUTA A SAUDADE
DO FEZ QUE E JÁ NÃO FAZ
FAZENDO O QUE É CAPAZ
QUE NEM PENSOU QUE FARIA
PARABÉNS POR MAIS UM DIA
QUE DEUS TE DÊ MILHÕES MAIS
(Parabéns Josa Rabêlo) Braz Ivan
Minha vida agora é essa
Sem mulher sem companhia
Pra curar a nostalgia
Fiz macumca e fiz promessa
Mas eu nasci de travessa
E com 5 anos de idade
A cigana na cidade
Disse ao ler minha mão:
Na roleta da paixao
Teu nome serà saudade
Deixei meu amor primeiro
Troquei-a por mil amantes
Por paixões intinerantes
Vivendo sem paradeiro
Tornei-me legìtimo herdeiro
Dos bens da infelicidade
Vivo, mas, sem ter vontade
Sempre com a impressão:
Na roleta da paixão
Meu prêmio serà saudade.
Com o sopro dos seus làbios
Deus criou o universo
Criou estoltos e sàbios
Pois Deus gosta do diverso
Criou diversas estrelas
Depois mandou esconde-las
No ventre que a mulher tem
O seu utero esconde o brilho
Mas, quando ela gera um filho
Vira uma estrela tambem.
Bràs.
Como um velho passarinho
Que se apegou a gaiola
Como quem vai à escola
E se esquece do caminho
Como se sentir sozinho
Na festa de Canidé
Visitar a Santa Sé
E voltar sem ver o Papa
Sou eu vivendo essa etapa
Distante de Sao José.
Como um ovelha berrando
Que se apartou do rebanho
Como quem se sente extranho
Na casa que està morando
Como quem ta esperando
Na fila do cabaré
Como quem pede filé
E lhe dao carne com osso
Sou eu um poeta moço
Distante de Sao José
Como a mae que ver o filho
Que a policia desarma
Como quem segura a arma
Mas nao aperta o gatilho
Como um falso trocadilho
De sapo, sapa e sapé
Como um côco catolé
Sendo esquecido no cacho
E mesmo assim que me acho
Distante de Sao José
A cabra vendo a carcaça
Do cabrito devorado
Um vira-lata acuado
Por um cachorro de raça
Como quem conquista a taça
Mas nao sabe do que é
Como quem fica de pé
Mas nao ver o que deseja
Sou eu tomando cerveja
Distante de Sao José
A cabra vendo a carcaça
Do cabrito devorado
Um vira-lata acuado
Por um cachorro de raça
Como quem conquista a taça
Mas nao sabe do que é
Como quem fica de pé
Mas nao ver o que deseja
Sou eu tomando cerveja
Distante de Sao José
Comadre Fatima e Taiza
Cadê as noticias suas?
Tava jà ficando doido
Correndo nù pelas ruas
Quando um vento-pajeu
Passou em Caruaru
Troxe noticia das duas.
Resposta do Poeta ao comentário de Josa Rabelo, falando que o mesmo dificilmente alcançaria o cume da montanha... A sorte essa uma sombra acolhedora encontrada na subida.
Valeu meu nobre poeta
Pelo incentivo e estima
A serra era muito alta
Sofri pra chegar em cima
Mas o cume me inspirava
Cada vento que passava
Trazia um feixe de rima.
GÊNESIS
Quando Deus inflamado de improviso
Pois o Tudo no nada que era caos
Reuniu todo ser no paraiso
Sò os "bons"!! não havia ainda os maus!
Mas, os "bons" quase nunca têm juizo
São sem leme e sem vela suas naus
Cometeram de modo impreciso
Um pecado de cento e oitenta graus.
Deus irou-se banindo-os do Eden
Mas, os "bons" por clemência nunca pedem
Orgulhosos não mudam de conduta.
Jà os "maus" que têm medo de cobiça
Todo dia que podem vâo à missa
E os "bons" todo dia vão à luta.
(Padre Brás Ivan)
Ques Casar Cum Eu?
Coração si tu quiser
Juntar os trocim mais eu
Cuma marido e muié
Eu e tu e tu e eu
Eu vendo as minha cabrinha
Tu vende as tua galinha
Nòis compra tudim de troço
E tu vem pro meu ranchim
Que è piqueno e pobrizim,
Mas serà todinho nosso.
Si tua mâe disser não
E teu pai me rifugar
Num chore não coração
Di noite eu vou te robar
Eu selo a besta baxêra
Nois parte in toda carrera
Cuma quem disimbestado
E vamu pra São Josè
Quandu os teus pai derem fè
Nois ja vamo ta casado
E depois disso sò Deus
Impata o amor da gente
Eu tano nos braçus teus
Num quero oto presente
Vamu combinar assim?
Tu vai cuidandu di mim
E eu cuidando de tu
E pra ser feliz di vez
Vamu viver sò nois tres
Tu, eu e o Pajeù.
Mas si tu disser qui não
Qui num sente amor pureu
Possa saber coraçâo
Qui o mundo pra mim morreu
Abandonu minha lida
Me dismantelo na vida
Dano-me a beber cachaça
Si tu num for o meu ganho
Sò Deus qui sabe o tamanho
Qui vai ser minha disgraça
Pruquê sem tu meu amor
O resto è tudim inçosso
È sem graça e sem sabor
Cuma carne de pescoço
Ave Maria três vez
Se tu me deixar di vez
Pra mim vai ser um horror
Eu mermu mim interro vivo
Na tumba iscrevo o motivo:
Essi aì morreu di amor
Mâe Centenària(9 de março Centenario de São José)
Oh! Espartacus de poetas guerreiros
Oh! Atlantida de vates submersos
Salve! Meca de incrédulos violeiros
Salve! Jerusalém a mâe dos versos.
Protegei! musa-mor, nòs, teus herdeiros
Exilados, saudosos e dispersos
Abênçoas! teus filhos extrangeiros
Que te amam de modos controversos
Oh! augusta senhora solidària
Fonte de poesia centenària
Guardiã dos umbrais da inspiração.
Soberana dos versos arquiteta
Protetora de quem nasceu poeta
Fiz pra ti este verso em Oração
Recuso a apelação
Reconheço a circunstãncia
Nâo vou a terceira instãncia
Aceito a acusação
Nâo quero abssolvição
Quero aceitar meu pecado
Falar em frente ao jurado
Contra mim mesmo depor:
No tribunal do amor
Sou reu confesso e culpado
Mas o que posso fazer
Se estou cumprindo um mandato
Tenho mais que padecer
No meu exilio privato
Mas quando eu voltar pra casa
Essa saudade que abrasa
Vou muda-la em poesia
Mudar em sorriso o pranto
E vou viver no meu canto
Mais feliz do que vivia.
Eu nunca mais fiz um verso
Não por falta de vontade
Mas porque andei disperso
Cheio de ansidade
Todo verso que eu fazia
Tinha uma rima vazia
Sem métrica e inspiração
Foi quando um médico agnòstico
Me deu o diagnòstico
Isso é banzo do sertão
Se aprumaram pra meus primeiros passos
Testemunha de glórias e fracassos
Vitimada por mil secas cruéis.
Mas, pra nós sertanejos, inda és
Dos rincões, o mais belo e mais lembrado
Por seus filhos poetas, decantado
Para todos és chão, terra e auxílio
E pr’aqueles que vivem no “exìlio”
És lembrança chorosa do passado
Como posso esquecer as madrugadas
Nas moagens de cana nos engenhos
Tantas lutas, fadigas e empenhos
Das debulhas de milho nas latadas
Das bonitas manhãs ensolaradas
Adjuntos nas limpas de algodão
Buscas d’água num poço com galão
Almoçar feijão-verde com torresmo
Quem viveu essas coisas? Fui eu mesmo!
Nos meus anos de ouro no Sertão.
Quem não cala nas tardes sertanejas
Para ouvir o lamento do carão
Alternado no canto do cancão
Como fossem poetas em pelejas
Os badalos dos sinos nas igrejas
Convidando o caboclo a se benzer
O vermelho do sol no entardecer
Ir morrendo pras bandas do poente
Num teatro que Deus fez para a gente
Assistir esperando anoitecer.
Quando a noite, qual manto de viúva
Vem pintar o Sertão de negras cores
Aparecem os noturnos atores
Sapo, briba, guará, peba e saúva
Um matuto deitado, escuta a chuva
Que cai mansa nas telhas da palhoça
Quando o vento enfraquece, a chuva engrossa
Pensa então o caboclo emocionado:
Se eu pudesse ia agora pru roçado
Começar preparar a minha roça.
Meu Sertão, minha terra, meu regaço
O meu verso não é suficiente
Pra cantar o teu solo, a tua gente
Que trabalha e resiste sem cansaço
Não se assombra com seca nem mormaço.
Um cenário que Deus arquitetou
Eu aqui do lugar aonde estou
Apesar do progresso e do barulho
Mando um verso falando do orgulho
De Ser Tão sertanejo quanto sou.
Bràs Ivan
Também nasci no sertão
Onde o sol nasce bonito
Onde a terra é seca e quente
E rimar é quase um rito
A musa que beija a face
Beija tres vezes quem nasce
Em São José do Egito.
(Brás Ivan)
Josemar recebi sua mensagem
Meu irmão, com o coração em festa
Aprendi que essa vida aqui só presta
N'alegria e na camaradagem
Ontem mesmo sonhei com a viagem
que farei ano próximo Deus querendo
Mas parece que eu já estou vendo
Eu e tu e mais outros camaradas
Misturando cachaça com toadas
Poesia subindo e "mé" descendo
(Reverendo Braz)
Poeta quando eu voltar
Prepare fígado e mente
Deixe o que está fazendo
Vamos tomar aguardente
Garanta já o seu canto
Deixe que o resto eu garanto:
Cachaça, amigo e repente.
(Brás)
23 de julho poeta, o pajeu vai ser pequeno!!!
A gente bebe na rua
Pra mostrar que a gente é macho
Assim que eu ai chegar
Pode deixar que eu te acho
Depois que tu me saudares
A gente sai pelos bares
De "Bom Jesus" à Riacho.
(Braz)
Pra chorar encontrei outro motivo
Quando achei do engenho a velha porta
No oitão uma ingazeira morta
Decretava o fim definitivo
Cabisbaixo, tristonho e pensativo
Vim embora de novo pra cidade
Recordar é viver! Isso é verdade
Não poder viver mais é que não presta.
No lugar do engenho hoje só resta
Os escombros de dor e de saudade.
Do engenho herança dos meus pais
Do qual eu deveria ser herdeiro
Restam só os tijolos do bueiro,
Alguns cacos de telhas, nada mais.
Lá num canto de cerca ainda jaz
A moenda sem mais utilidade
Me responda poeta por bondade
Se existe tristeza como esta.
No lugar do engenho hoje só resta
Os escombros de dor e de saudade.
Eu quase me esquecia
Mas você rapidamente
Me advertiu dizendo:
Poeta cante pra gente!
Vou atender seu apelo
Que o sobrenome Rabelo
E sinônimo de repente. (Braz Ivan)
De Onde Meu Verso Nasce
Meu verso nasce enrolado
Nas ramas da gitirana
Depois que nasce o amarro
Com tira de imburana
Não faltam tiras nem versos
Sete dias por semana.
Eu vendo um rolo de cana
Se transformar em bagaço
Um vaqueiro destemido
De gibão, perneira e laço
Misturo tudo com rima
Nos muitos versos que faço.
E quando sinto o mormaço
No pingo do meio-dia
Uma cigarra estridente
S’acabando em cantoria
Pego os dois ingredientes
E transformo em poesia.
Quando o bacural vigia
Na cabeça da estaca
Um caçote perde a vida
Na presa da jararaca
Eu sinto que um verso nasce
E no meu peito se ataca.
Enquanto na arataca
Um preà se aperreia
Um bode “trupica”e cai
Por estar preso na peia
Sinto um magote de verso
Correndo na minha veia.
Enquanto na roça alheia
Menino rouba goiaba
A nuvem roxa de inverno
`As aguas do céu desaba
Eu colho versos da fonte
Cheia que nunca se acaba.
O cheiro forte da baba
D’uma vaca remuendo
Uma torre no nascente
Se no sertão ta chuvendo
Sinto na roça da alma
Um verso novo nascendo.
Quando vem amanhecendo
No terreiro da cozinha
Eu vendo um galo pedrez
Correndo atràs da galinha
Até isso entra em meus versos
Dando graça a rima minha.
Ainda de manhãzinha
Mâe preparando o café
Meu pai batendo a enxada
Vovô cheirando rapé
Vendo essas coisas me inspiro
Faço verso sem dar fé.
Pescando de jereré
Caçando de baladeira
Pastorando a criação
Me balançando em porteira
Somente lembrando disso
Faço verso a tarde inteira.
Brocando uma capoeira
Esperando as trovoadas
Ouvindo um vaqueiro velho
Rouco cantando toadas
Assim comecei fazer
Minhas estrofes rimadas.
Enquanto nas madrugadas
Caçava peba e tatu
Com fogo, fumaça e vara
Eu derrubava um enxu
Lavava a alma com versos
Nas aguas do Pajeu.
E quando o mandacaru
Nos dava a flor da esperança
A seca ia-se embora
Dando lugar a bonança
Eu rabiscava sem jeito
Os meus versos de criança.
Quando era noite de dança
Atravessava os riachos
Para ver as sertanejas
Com lindas tranças e cachos
Melodiava meus versos
No toque dos oito-baixos.
E quando os ferventes tachos
Borbulhavam nas moagens
Deus bendizia com chuva
Altos, baixìos e vàrgens
Eu jà descrevia em versos
Essas bonitas imagens.
E quando as cinzas paisagens
Denunciavam o estio
Eu na luz de um candeeiro
De lata, gàs e pavio
Cantava a terra rachada
Do leito seco do rio.
Um sertanejo bravio
Num serviço de emergência
Uma mâe com doze filhos
Sofrendo com paciência
Faziam com que meu verso
Ganhasse forma e essência.
Quando as mãos da Providência
Tinham compaixão do povo
Mandava chuva na terra
Como sinal de aprovo
Sentia um verso na alma
Começar nascer de novo.
Pra festa de ano novo
Quando pai caiava a casa
Mâe estirava o vestido
Num velho ferro de brasa
Sentia a rima crescendo
E o verso criando asa.
Quando na cacimba rasa
A seca prenunciava
Que estaria chegando
Sem dizer quando voltava
Eu sentia que calada
A minha alma rimava.
E quando a rama da fava
Marcava o cabão de milho
Um cheiro invadia a sala:
Angu, pamonha e sequilho
Assim nasceu meu repente
E disso meu verso è filho.
Ao ouvir um trocadilho
Do poeta lourival
Um padre fazendo verso
Na vigilia de natal
Dizia: quando eu crescer
Quero fazer um igual.
Vendo uma velha rural
Servindo de lotação
A vìrgem sendo exaltada
Num poema de Cancão
Nasceram assim no meu peito
Um monte de inspiração.
E quando a televisão
Não tinha lugar na sala
Vovò contava anedotas
Jà velha usando bengala
Ao lembrar disso minh’alma
Faz verso, soluça e cala.
E quando uma rosa exala
Cheiro excitando a abelha
Um pingo de chuva entra
Por uma brecha da telha
Faço um verso tão sofrido
Chega a rima saia vermelha.
S’a derradeira centelha
Do sol morre no poente
E o negrume da noite
Envolve o sertão da gente
Escuto a alma agitada
Gemer parindo repente.
E quando da terra quente
Se levantava o mormaço
Com um feixe de ração
Pesando em meu espinhaço
Eu fazia um verso inteiro
Rimando cada pedaço.
Assim o verso que faço
Nasceu aonde eu nasci
Bebeu a agua barrenta
Do barreiro que bebi
E comeu o xerem quente
Com leite como eu comi.
Os versos que eu pari
Nunca chamarei de meus
Porque sò fiz o retoque
E alguns detalhes seus
Fiz eu o acabamento
Quem criou mesmo foi Deus.
Não os quero nos museus
(Passa-Tempo de granfino)
E nem ornados em ouro
Escritos em papel fino
Os quero escritos somente
Na alma do nordestino.
(Brás Ivan)
Desafio entre o Reverendo Brás e João Rolim
Brás
João Rolim tu tens sido até feliz
Nas pelejas que tens participado
Mas, comigo o rojão é mais pesado
Já passei do meu tempo de aprendiz
As proezas que até agora fiz
Dão a prova de minha competência
Reconheço a sua inteligência
Mas, não corro, não temo nem vacilo
Se quiser pelejar diga o estilo
Ou o tema de sua preferência.
João
Eu não sei qual a tua sapiência
Mas terás o castigo que mereces
Pegue o terço e comeces tuas preces
Pois de mim não terás sobrevivência
Já tomei a devida providência
Pegues leite e mistures com mastruz
Sou carrasco coberto com capuz
Vim trazendo mil galhos de urtiga
Pra fazer tu secares a bexiga
Vou te dar três lapadas numa cruz
Brás
O teu verso é opaco, o meu reluz
Tua rima é quebrada, a minha inteira
Já venci no repente Zé Limeira
Otacílio Batista e Zé da Luz
Tu terás que comer muito cuscuz
Pra fazeres um terço do que fiz
Derrotei Lourival, Dimas,Diniz,
Xudu, Pinto, Cancâo, Jó e Valdir
Vila-Nova, Amâncio e Moacir.
E eu era somente um aprendiz.
João
Nossa! Nunca fiquei, assim, feliz
Com trezentos mil nomes de poetas
Menestréis, pais das rimas mais completas
Nossos deuses de versos de raiz!
Tão mais fácil serei a geratriz
Colocando teus versos lá pra trás
É melhor, pois ganhando de "seu" Brás
Serás tu, mais trezentos mil perdidos
Vão ficar todos loucos, sacudidos
Com mal sonhos, comigo, o ferrabrás!
Brás
Vou mostrar a você como se faz
Desafio em Martelo Agalopado
Quem estuda comigo sai formado
Com mestrado nas rimas principais
Os alunos, porém, não são iguais
Nem maiores que os mestres do repente
Pra você respeitar minha patente
Vou lhe dar uma surra extravagante
Pra você aprender de hoje em diante
Nunca mais afrontar cabra-valente
João
Sou Netuno, do mar, com meu tridente
Castigando tu'alma de bastardo
O maior dos felinos: leopardo
Que te ataca com sangue no meu dente
Sou o sol que renasce no oriente
E sou lua se pondo do outro lado
A patente que tens é de soldado
Já eu sou o maior dos generais
Sou, das rimas, o pai de todos pais
Tu és filho e serás meu deserdado
Brás
Dos poetas que têm me enfrentado
Dois deixaram o Brasil rapidamente
Um deixou de cantar e virou crente
Um deixou a mulher virou viado
Dois ficaram sem voz, um aluado
Hoje pede esmola na esquina
Três deixaram a terra nordestina
Peguei um "poetinha" amador,
Dei-lhe tanto um dia em Salvador
Que correu, foi morar em Teresina.
João
Capei um, de machão, virou menina
Descambei seu reinado faz-de-conta
Não aceito nenhuma desafronta
E o poeta aprende essa doutrina
Eu prescrevo-te dose de morfina
Pra acabar com a dor que te agonia
Eu comi teu sobejo de poesia
Digeri e caguei tudo rimado
Nesse chão vou deixar tudo adubado
Pra nascer minha bela dinastia
Brás
Teu reinado eu já sei como seria
Um castelo pequeno de areia
A rainha, uma rapariga feia
A princesa uma puta da Bahia
Um cavalo-de-pau por montaria
General, um cachorro vira-lata
Por exercito uma praga de barata
Refeição será bosta de besouro
Quatro "bilas" quebradas o teu ouro
Um rebôlo de pedra a tua prata.
João
Rapariga, donzela, até beata
Todas provo, com fúria e com paixão
Meretriz da Bahia ou Maranhão
São acordes pra minha serenata
Sou cavalo-de-pau que se desata
Um cachorro-sem-dono a viajar
Sou barata que vai te envenenar
Alquimista com prata em toneladas
Transformando teus versos em latadas
E latadas num belo recitar
Brás
Sou as cores do manto de Iemanjar
Sou o traço da linha do Equador
Sou a ponta do bico do condor
Sou a luz prateada do luar
O gemido da ema a soluçar
Contemplando as centelhas do sol posto
Para vate pequeno e indisposto
Ou pseudo-poeta como tu
Sou malvado que nem mandacaru
Não lhe sombra fresca nem encosto
João
Sou poeta, sou teu sincero oposto
Rezo às graças de Nossa Mãe Maria
A Jesus, eu pra sempre cantaria
A Satã, jogo pragas no seu rosto
Jogo o doce no mar, mudando o gosto
E depois tempestade no sertão
Sou a lava explodindo do vulcão
Injeção pra curar qualquer doença
Minha marca que trago de nascença
É bater em poeta fanfarrão
Brás
Com poetas da tua posição
Pelejar é jogar verso no mato
Não consegues fazer um verso exato
Faltam métrica, rima e oração
Um poeta da minha condição
Cuja rima é perfeita, o verso belo
Nem devia escutar esse donzelo
E deixar que o povo lhe esqueça
Onde diabos estava com a cabeça
Quando te convidei para o duelo?
João
Vou marchando e teus versos atropelo
Como cinco mil homens numa guerra
Essa briga, veremos que se encerra
Quando tu se quebrares em farelo
Eu cansei de tua rima e te afivelo
Passo a rédea, castigo e deixo manco
Dou-te uns chutes certeiros no teu flanco
Que até hoje, tu mijas puro sangue
Faço para que todo o povo mangue
E só chorem de rir quando te espanco
Brás
No meu time você fica no banco
Sem direito a chutar nenhuma bola
Serás sempre reserva e eu cartola
Serei sempre estrada e tu barranco
Onde quer que te escondas te arranco
Onde quer que tu corras vou atrás
Vou lhe dar uma surra tão voraz
E depois do serviço concluído
Tu dirás orgulhoso e comovido
Minha gente, hoje apanhei de Bràs!
João
Sou o tiro de cruz no satanás
Meteoro caindo no teu bucho
Sou a 12 cheinha de cartucho
Disparando na frente e por detrás
Sou valete, rainha, rei e ás
Dum baralho, marcado e bem certeiro
Sou a benção almejada por romeiro
Quando reza uma prece a Padim Ciço
Sou o vinho francês, queijo suíço
Cascavel com meu bote traiçoeiro
Brás
A cigana roubou o teu dinheiro
Predizendo teu dom de menestrel
Tô pensando que essa cascavel
Não agüenta meu carcará guerreiro
Vou lhe dar uma chance companheiro
De correr antes que você se acabe
Você quer um lugar, mas, não lhe cabe
No partido dos grandes do repente
Vá passar anador pra dor de dente
Deixe aqui, cantoria pra quem sabe.
João
Deixa tu, e meu verso leia e babe
Pois voltei com mais força que Sansão
Sou Rolim, meu primeiro nome é João
Corra logo, antes que você desabe
Todo grito de dor bem mais lhe cabe
Zé Limeira uma vez me disse bem:
"João Rolim, esse Brás não é ninguém
É melhor tu parar, se não Brás chora
Não mais perca seu tempo, vá embora
Pois tu és cantador pra mais de cem"
Brás
Joao Rolim você sabe muito bem
Que comigo o buraco é mais embaixo
Tenho verso guardado e desencaixo
Faço os meus e empresto a quem não tem
Mas, você se atraveu fazer desdém
Numa frase que Limeira propôs
Es mais fraco que água de arroz
O teu verso é suado e sem sentido
Se Limeira não tivesse morrido
Meteria o cacete em todos dois
João
Tu conhece, seu Brás, carro-de-bois,
Que se vê no sertão de meu nordeste?
Pois eu sou um vaqueiro tão da peste
O melhor, com certeza, de nós dois
Pois afirmo, pro mundo, que não sois
Nem mugido que dá esse animal
Aliás, eu menti, tu, afinal
És um deles, que puxa a chicotadas
Dou-te pisa sem medo das chifradas
E tu levas, e eu João, vou magistral
Brás
Eu conheço de certo esse animal
Não me ofende uma tal comparação
Já que os bois são a força do sertão
E motores da industria rural
Já você também mora no curral
Mas tem outra função e outro plano
Passa o dia no pasto sem ter dano
Sendo que o que dais por serventia
Cinco litros de leite em cada dia
E um bezerro parido todo ano.
João
Eu já soube que és paraibano
Da cidade que brota cordelistas
Mas não chegas aos pés do teus artistas
Pois nas rimas, pra ti, sou desumano
Sou cearense-soteropolitano:
Da Bahia amada onde eu nasci
Pôs-me forte sua tribo Guarani
Sob o sol escaldante eu me criei
Mas meu versos, seu Brás, eu lapidei
Nas belezas do belo Cariri
João
Brás
João Rolim eu agora entendi
Que brigar com você é sem futuro
Toda vez dou de cara contra o muro
Pois rimar ruim assim eu nunca vi
Faça um curso intensivo por ai
Depois marque comigo uma porfia
Te ensino também geografia
Pra saber Pernambuco aonde è
Que eu nasci, cabra besta! em São José
Capital mundial da poesia
João
Aprender matemática, agronomia,
Ou história, ciências e francês
Estudar geometria, português
Bioquímica e até filosofia
Isso tudo, querendo eu bem faria
Sem suar, só por pura brincadeira
Mas escola da trova condoreira
Não se vê em qualquer rincão perdido
Pois aqui o seu verso é suprimido
Por matuto da brenha catingueira
Brás
O meu verso se inspira na rendeira
De mãos grossas rendendo a branca lã
No orvalho gelado da manhã,
É mais quente que boca de caieira
E você não achando uma maneira
Para ao menos de longe me seguir
Começou a tentar me agredir
Dando coice e rinchando como um jegue
Me afrontar,tudo bem, você consegue
Me vencer, é difícil conseguir.
João
Tudo bem, eu não vou mais te ferir
Já que tu não consegues segurar
Eu começo outro verso pra brincar
Só espero que largues de mentir
Pois comigo não vais sobressair
Sente aí, aprecie o cantador
Há mil anos que faço a tua dor
Já que sou o bisneto dos três "pês"
Eu herdei de Joaca* o que tu lês
Não confundas mal-feito com primor
Brás
Posso até respeitar o teu valor
Se fizeres um verso com sentido
Porém tudo de teu que tenho lido
È sem cheiro, sem forma e sem sabor
No teu verso também eu quero por
Cinco letras: um "D" de duvidoso
Acrescento um "V" de vergonhoso
Eis aí a razão por que me temes:
É por que o teu verso tem 3 "Émes"
Mutilado, medíocre e mentiroso.
João
Eu achei o teu verso duvidoso
Pois falaste de três "émes" completos
Pode vir com antigos alfabetos
Que eu até fico mais que curioso
Mas os "pês" de meu verso astucioso
São honrados por todo meu parente:
Pegues, passes, pareças pertinente
Pois, pateta, precisas pesquisar
Poetinha pedir pra pelejar?
Porque paras, perdido plenamente?
Brás
Com você tenho sido complascente
Mas,agora acabou a brincadeira
Ou você se apruma na fileira
Ou se lasca comigo no repente
Vai ser esse o rojão daqui pra frente
Eu na frente e você correndo atrás
Você tenta, se esforça mas, não faz
Acordado o que eu faço dormindo
Tô chegando e você nem tá partindo
Sento aqui e te espero um pouco mais.
João
Teu navio não se ancora neste cais
Dos mais belos, temidos do repente
Eu nasci lá na terra do sol quente
Meus cordéis são maiores e imortais
Tu verás nestes teus tempos finais
Que poeira é seu único companheiro
Pois eu sei que és último e eu primeiro
Sou maior, seu cabrinha, sai daqui
Tenho a força da tribo Kariri
Que criou minha rima em Juazeiro
Brás
O meu verso forjei no tabuleiro
Cada estrofe que faço é de um talho
Já a sua é feita de retalho
Até hoje não vi um verso inteiro
Me rebaixo pra ser seu companheiro
Mas você nem assim me acompanha
Quanto mais se esforça mais apanha
Vai à missa, se benze e faz promessa,
Ler romance,cordel,se interessa,
Pra ganhar a peleja,mas, não ganha.
João
Essa tua frescura não me arranha
Pois eu sou cordelista muito macho
Colho versos que nascem neste cacho
Da mais bela natura da montanha
Saiba, Brás, que comigo é na inhãnha*
Meus retalhos são mais que os teus vestidos
Pra cabrinhas mal-feitos e exibidos
Que vieram pensando em pelejar
Vá de reto e aprenda qual seu lugar
Pois aqui seus martelos são feridos
Brás
È tortura demais pra meus ouvidos
Essa tua cantiga retalhada
Parte bem, mas, bem perto da chegada
Se ver logo uns três versos perdidos
Os teus erros são todos conhecidos
São de métrica, rima e oração
Apesar disto tudo ainda são
Sem sentido, sem pé e sem cabeça
Até hoje não vi um que mereça
Um minuto de minha atenção
João
Eu confesso: teu verso é sem noção
Nunca esteve entre os grandes do repente
No Martelo eu sou muito mais decente
Já tua sina é viver na contramão
Sou a fúria carnívora do leão
Que trás sangue por entre suas presas
Avoante que vê todas belezas
Lá de cima, num vôo ao firmamento
Tenho o verso mais lindo em nascimento
Enfeitado com mantos de riquezas
Brás
Vou agora somar tuas fraquezas:
Verso torto quebrado pelo meio,
Rima fraca franzina sem recheio,
Orações sem contexto e sem belezas.
Se não fosse umas duas safadezas
Entre os versos os dismetrificando
As estrofes seriam como um bando
De elefantes na loja Cristal
É assim o teu fraco recital
É assim que até hoje vens cantando
Dinheiro do Santo
Nosso sertão tem histórias
Que até o diabo duvida
De desventuras, de glórias,
De coisas da outra vida.
Essa que eu vou contar
Aconteceu num lugar
Pequenino,pobre e feio
Porém de gente decente
De cabra honesto e valente
Era Riacho do Meio.
Naquele tempo o distrito
Tinha uma igreja pequena
Para se cantar bendito
No mês que tinha novena
O povo todo acorria
Quando a igreja abria
E alguém o terço puxava
Outro levava um dinheiro
Para o santo milagreiro
E aos seus pés depositava.
Um frade tinha doado
À capela do distrito
Um santo muito afamado
Por nome São Benedito
O santo era poderoso
E logo ficou famoso
Porque mostrou muita raça
Quem rezava e lhe pedia
Nem bem da igreja saia
Já tinha alcançado a graça.
Todo tipo de promessa
O povo vinha fazer
O santo mais que depressa
Não tardava em atender
Pedido de todo jeito
Pra se livrar de defeito,
Pro ano ser bom de inverno
Moça velha se casar
Ladrão deixar de roubar
E se livrar do inferno.
O santo logo ganhou
O titulo de padroeiro
O padre a missa rezou
Para o santo milagreiro
E o povo na capela
Reza, acendia vela
Depois cantava um bendito
Para o santo padroeiro
E não faltava dinheiro
Nos pés de São Benedito.
No ano quarenta e três
Teve uma seca infeliz
Choveu um quarto de mês
Dos sertões aos cariris
E Antonio Cabugé
Que inda hoje vivo é.
Sem ver mais nuvens no céu
E a lavoura perdida
Resolveu fazer partida
De Barra de São Miguel.
E foi procurar trabalho
Logo em Riacho do Meio
Arrumou um quebra-galho
Para fazer um esteio
E foi por ali ficando
Sempre,sempre trabalhando
Todo serviço enfrentava
Lutava a semana inteira
Quando era dia de feira
Umas cachaças tomava.
Antonio era um rapaz
Que lhes dizer eu preciso
Não era doido demais,
Nem tinha muito juízo
Mais era trabalhador
Honesto e respeitador
Todos lhe queriam bem
Era bem visto na rua
Tomava a cachaça sua
Sem fazer mal a ninguém.
Quem parte do cariri;
Um lugar que chove pouco
E vem parar por aqui
Só pode ser mesmo louco.
Pois se lá è ruim que dobra
Aqui é pior e sobra
Padece da mesma falha
Pra quem vem de São Miguel
É sair do fogaréu,
Pra entrar numa fornalha.
Antonio è feito dum talho
Que hoje não se usa mais
Não tem medo de trabalho
Mandou, pagou, ele faz
Sua palavra é um tiro
Até o ultimo suspiro
Sustenta a palavra dada
Mesmo ninguém nunca viu
De norte a sul do Brasil
Antonio com enrolada.
Antonio um dia tomou
Umas bicadas a mais
Porque ele misturou
Cana com vinho São Brás
Não era de embriagar-se
Mas sem que ele notasse
Perdeu o rumo dos astros
E fico na ocasião
Como se diz no sertão:
Fazendo dum pé, dois rastros.
Antonio então resolveu
Que queria outra bicada
Porem logo percebeu
Que no bolso, tinha nada
Ficou meio encabulado
Porque já tinha alisado
E não tinha uma ruela
Saiu andando sem norte
E por azar ou por sorte
Se viu dentro da capela.
Quando Antonio olhou de lado
Viu a imagem do santo
E ficou admirado
Quando também viu o tanto
De dinheiro velho e novo
Que era oferta do povo
Para o santo poderoso
Nisso Antonio levantou-se
Da imagem aproximou-se
E disse em tom respeitoso:
Boa tarde cidadão
Sô Antôio Cabugè
Moro perto do grotão
Trabaio pra João Coité
Recebo toda sumana
Quero tumar uma cana
Mas tô mei disprivinido
Percibi sua bondade
E tomei a liberdade
Di li fazer um pidido:
Da pru sinhô me arrumar
Do muito cobre que tem
Cinco minrés preu tumar
Uma ali no armazém?
Podi imprestar sem sobrosso
Que sabu despois do armoço
Assim que eu receber
O meu pequeno ordenado
Podi ficar sossegado
Que eu vem aqui lhe trazer.
Comigo não tem perigo
Do sinhô num receber
Pode escrever o que eu digo
Depois espere pra ver
Se eu tenho palavra ou não
Pois daqui pru Riachão
Meu nome é limpo na praça
E se o sinhô mim emprestar
Garanto de li pagar
Di sabu que vem num passa.
São Benedito ficou
Calado e indiferente
Ele consigo pensou:
Quem cala é por que consente.
Ficou na ponta dos pés
Pegou os cinco minrés
Despediu-se gentilmente
Com o dinheiro emprestado
Entro no bar de Conrado
Tomou mais uma aguardente.
Tinha um guarda na capela
Rezando na sacristia
Escutou toda novela
Que Antonio ao santo dizia
E resolveu esperar
Se ele vinha pagar
Como tinha prometido
E depois achou por bem
Não contar nada a ninguém
Sobre o que tinha ocorrido.
Antonio voltou pra roça
Trabalhou feito um jumento
Sempre a noite na palhoça
Lembrava do juramento
E consigo ia pensando:
Eita, tá quage chegando
O dia do ordenado
Compru um sandaio prus pés
E levo os cinco minrés
Daquele homi educado.
Quando enfim chegou o dia
Que Antonio tinha marcado
Pegou a justa quantia
E partiu meio apressado
Quando foi na rua entrando
De longe foi avistando
Meio sem acreditar
Pois sim! era Cazuzinha
Seu irmão menor que vinha
Da Barra lhe visitar.
Se entreteram meia hora
Num constante blablablà
Antonio lhe disse: Agora
Fique aqui que eu volto já
Vou acertar um negoço
Pois me esquecer eu não posso
E hoje é o dia certo
Depois da conta acertada
Nós toma uma bicada
Ali no bar de Adaberto.
Quando ele ia saindo
O guarda se aproximou
Onde o senhor está indo?
Zangado lhe perguntou.
Deixe dessa veiaquisse
Não foi o senhor que disse
Que hoje pagava o santo
Pois pegue os cinco minrés
E vá botar nos seus pés
Você sabe onde è o canto.
Quando Antonio aquilo ouviu
Ficou dispranaviado
Pra igreja se dirigiu
Sem responder ao soldado
A porta tava encostada
Deu lhe logo uma pesada
Foi tabua pra todo lado
Sem que ninguém lhe impedisse
Pegou o dinheiro e disse:
Toma ai cabra safado.
Por certo você pensava
Que eu não vinha lhe pagar
Me diga se precisava
Você o guarda mandar
Cobrar essa minxaria
Saiba que essa quantia
Para mim não vale nada
Comigo você foi raso
Eu inda tava no prazo
Você que fez paiaçada.
Ao ouvir o lambassé
O sacristão perguntou
O que è isso Cabugé,
Por que a porta quebrou?
Antonio lhe disse: nada!
Eu e esse camarada
Tamu acertando uns pendido
Fique fora da manobra
Se não o cacete sobra
Também pru seu pé do uvido.
E partiu feito um leão
Pra cima de Benedito
Lhe agarrou o sacristão
Uma velha deu um grito
Juntou gente pra danado
O cacete foi pesado
Não ficou um banco em pé
Por mais gente que juntasse
Não tinha quem sigurasse
A fùria de Cabugé.
Quem chegava pra apartar
Um bufete recebia
Com raiva, pra se vingar
Com pancada respondia
E a briga ia aumentando
E sempre gente chegando
Homem, mulher e menino
Quebraram com uma vassoura
A caixa da difusoura
E toraram a corda do sino.
No meio da confusão
Quebraram a chapa de Noca
Acertaram um bufetão
Na filha de Zé de Doca
Depois rasgaram o vestido
De Zefa de zé cumprido
Inda hoje ela tem mágoa
Ligeira como um foguete
Pra se livrar do cacete
Saiu correndo de anágua.
E nisso banco voava
E na parede batia
Um deles quase acertava
Nossa Senhora da Guia
No meio da bagaceira
Um pedaço de cadeira
Acharam por bem jogá-lo
Mesmo em São Jorge, patrão
Que ficou sá o dragão
E um taco do cavalo.
Quebrou-se o confessionário
De um coice que Antonio deu
O pobre São Januário
De um golpe que recebeu
Começou a balançar
Não tendo onde se apoiar
Espatifou-se no chão
Jogaram um pau em Abreu
Trincou São Judas Tadeu
Quebrou São Sebastião.
Tinha uma imagem indefesa
De São José e Jesus
Jogaram um taco de mesa
Acertou logo na luz
Depois atingiu o santo
Foi caco pra todo canto
O fuzuê foi bonito
A santaiada quebrada
Só quem não levou pancada
Foi mesmo São Benedito.
A bagunça se desfez
Quando a policia chegou
Todo mundo pro xadrez!
O delegado frisou.
Algemaram todo mundo
Somente José Raimundo
Filho de Nhô Nicolau
Invés de ir pra cadeia
Passou foi semana e meia
Na cama do Hospital.
Liberaram cabugé
Depois de alguns contatos
Porque nenhum um doido é
Responsável por seus atos
Liberaram todo mundo
Depois também Zé Raimundo
Teve alta do hospital
Riacho do Meio aos poucos
Apesar dos muitos loucos
Ia voltando ao normal.
Indireitaram a capela
Madaram imendar os santos
Bendito louvado seja!
Dizia o povo entre prantos
Sempre entoando bendito
Louvando São Benedito
Que do furdunço escapou
Já tem outra imagem até
De Jesus e São José
No lugar da que quebrou.
O vigário novamente
Fez a inauguração
E disse:daqui pra frente
É pra prestar atenção
Quando quiserem brigar
Procurem outro lugar
Pra fazer esse serviço.
Vão bagunçar noutros cantos
Que aqui sobrou foi pros santos
Que não têm nada com isso.
Antonio voltou pra lida
Tocou a vida pra frente
Manerou com a bebida
Mas inda toma aguardente
Continua sem preguiça
Vez enquando vai à missa
Reza pra Santo Expedito,
São José do Ribamar
Mas, não quer nem escutar
O nome São Benedito.
Bràs Ivan,
Suiça, maio de 2007.
Bar sò Presta no Sertão
O povo daqui não sabe
Beber como a gente bebe
Não tem um bar na Cohab
Pra vender cachaça a plebe
Quem quiser sentir desgosto
Peça aqui um tira-gosto
Para ver o que lhe dão
Depois de aqui ter bebido
Eu hoje estou convencido:
Bar só presta no sertão.
Fiado aqui ninguém vende
Nem tem cachaça brejeira
Português ninguém entende
Somente a língua estrangeira
Viola aqui ninguém toca
Não se bebe rom com coca
Nem tem conhaque alcatrão
Por isso, eu, meu amigo
Tenho razão quando digo:
Bar só presta no sertão.
Galinha de capoeira
Ninguém sabe o que que è
Porque aqui não tem feira
Como tem em São José
Nem tem o bar de Beata
Aonde se junta a "nata"
Pra improvisar mourão
Aqui não tem repentista
E sem querer ser bairrista:
Bar sò presta no sertão.
Nada que eu admiro
Por aqui ouço tocar
De Lostiba e de Delmiro
Se quer, escuto falar
Não tem balcão de bodega
Não toca Deda do Brega
Não tem verso de Cancão
De louro,Otacílio e Dimas
E pra concluir as rimas:
Bar só presta no sertão.
Sexta-feira aqui não tem
A boate de Bigode
Açougue aqui também
Não vende carne de bode
Aqui tem alguns botecos
Mas, não tem o bar de Sheko`s
Nem o trayller: Corujão
Pra tomar duas latinhas
Depois de dançar no Binhas
Bar só presta no sertão.
Bràs Ivan,
Suiça,2006.
Eu cantando já fui fenomenal
Comecei quando ainda era menino
Bati muito no velho Zé Faustino
Açoitei Cancão, Pinto e Lourival
Ivanildo me viu e passou mal
Moacir ao me ver correu pra trás
venci mais de duzentos festivais
E Geraldo onde me ver se espanta
No lugar onde eu chego ele não canta
E o que é que me falta fazer mais
Na Igreja fiz grande intervento
Todo mundo aceitou a minha idéia
Convoquei os Concílios de Nicéia
Dois em Constantinopla e um em Trento
Só se é Papa com meu consentimento
E sou eu quem elege os Cardeais
Os discursos que Bento sempre faz
Lhes dizer a verdade agora devo.
Ele os ler, mas, sou eu que os escrevo
E o que é que me falta fazer mais.
Este ano eu fui prêmio Nobel
Acabei os conflitos da Irlanda
Pus um fim na guerrilha de Uganda
Fiz aquele inferno virá céu
E dali eu parti pra Israel
E depois reuni-me com o Hamás
Prometeram a mim viver em Paz
Sem ofensa, sem rixa e sem ataque
Amanhã parto cedo pro Iraque.
E o que é que me falta fazer mais.
(Braz Ivan)
Todo dia assim que amanhece
Eu elevo a Deus uma oração
E movido de força e emoção
Eu elevo a Deus a mesma prece:
Quem me dera Senhor que eu tivesse
Na Recife, gigante hospitaleira
Guardiã da cultura alvissareira
Capital do estado e nosso orgulho.
Ah meu Deus! se amanhã já fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Ir à praia sentir a doce aragem
Temperar a garganta com pitù
Com caldinho de peixe e sururu
Contemplando do mar sua paisagem
Ir do Pina até Boa Viagem
Pra rever a pracinha e sua feira
Ir à Igreja rezar pra padroeira
E fugir um momento do barulho.
Ah meu Deus! se amanhã ja fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Quem me dera, sem ter pressa nenhuma
Contemplar a paisagem calma e linda
Num domingo de sol na Sé de Olinda
Pra comer tapioca e tomar uma.
Ir à praia e pisar na branca espuma
E depois caminhar na orla inteira
Ver a onda gigante vir ligeira
E bater de encontro ao pedregulho.
Ah meu Deus! se amanhã ja fosse julho
Pr'eu rever a "Veneza brasileira".
Er’eu dormindo e sonhando
Que « tava » no Pajeù.
Ouvi um som parecido
Com um baião de viola
Vi um pé de castanhola
Um umbuzeiro florido
Vi um boi esmorecido, Um menino com lundu
Vi um pé de mulungu
A seca desafiando:
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú”.
Eu vi num dia de feira
Um cego desafinado
Tocando um velho teclado
Só cantando “roedeira”
Também vi na “salgadeira”
Um matuto semi-nu
Com um “quartim” de pitù
Jà quase se embriagando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Eu fui a Serra escutar
Na linda igreja da penha
O povo cantando: “Venha
Trazer paz para o meu lar”
Vi Marcolino cantar
A “Fulô do Cumaru”
“Feira de Caruaru”
Gonzagão interpretando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Me vi em vários lugares:
Afogados, Mirandiba
Calumbi e Carnaíba
Respirando doces ares,
Sempre provando em seus bares
“Tira-gosto” de tatu
Ou “tira-gosto” de umbu
Se grana estava faltando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que estava no Pajeú.
Percorrendo o longo rio
Sem barcos, mapas e setas
Encontrei vários poetas
Cantando em desafio
Vi um poeta bravio
Desafiando Xudu
Vi Dimas, jò, Zé Lulu
E Louro trocadilhando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Quase senti os odores
De muçambê e jasmim
Quase vi Itapetim
A terra dos cantadores
Vi a igreja de Flores,
Uma safra de cajo,
Ia comendo um bejù,
Mas, aì, fui acordando.
Er’eu dormindo e sonhando
Que “tava” no Pajeú.
Acordei e me dei conta
Que estava muito distante
Mas, inda estou confiante
Qu'esta tristeza tramonta
Verei o sol que desponta
Como fosse um príncipe nú
Quero juntar eu e tu,
E nòs no mesmo lugar.
Quero dormir e sonhar
ESTANDO no Pajeú.
Bràs, Suiça, 21 de abril de 2008
44 DE IDADE
METADE DE 88
E DOBRO DE QUANDO AFOITO
DESFRUTOU A MOCIDADE
HOJE DESFRUTA A SAUDADE
DO FEZ QUE E JÁ NÃO FAZ
FAZENDO O QUE É CAPAZ
QUE NEM PENSOU QUE FARIA
PARABÉNS POR MAIS UM DIA
QUE DEUS TE DÊ MILHÕES MAIS
(Parabéns Josa Rabêlo) Braz Ivan
Minha vida agora é essa
Sem mulher sem companhia
Pra curar a nostalgia
Fiz macumca e fiz promessa
Mas eu nasci de travessa
E com 5 anos de idade
A cigana na cidade
Disse ao ler minha mão:
Na roleta da paixao
Teu nome serà saudade
Deixei meu amor primeiro
Troquei-a por mil amantes
Por paixões intinerantes
Vivendo sem paradeiro
Tornei-me legìtimo herdeiro
Dos bens da infelicidade
Vivo, mas, sem ter vontade
Sempre com a impressão:
Na roleta da paixão
Meu prêmio serà saudade.
Com o sopro dos seus làbios
Deus criou o universo
Criou estoltos e sàbios
Pois Deus gosta do diverso
Criou diversas estrelas
Depois mandou esconde-las
No ventre que a mulher tem
O seu utero esconde o brilho
Mas, quando ela gera um filho
Vira uma estrela tambem.
Bràs.
Como um velho passarinho
Que se apegou a gaiola
Como quem vai à escola
E se esquece do caminho
Como se sentir sozinho
Na festa de Canidé
Visitar a Santa Sé
E voltar sem ver o Papa
Sou eu vivendo essa etapa
Distante de Sao José.
Como um ovelha berrando
Que se apartou do rebanho
Como quem se sente extranho
Na casa que està morando
Como quem ta esperando
Na fila do cabaré
Como quem pede filé
E lhe dao carne com osso
Sou eu um poeta moço
Distante de Sao José
Como a mae que ver o filho
Que a policia desarma
Como quem segura a arma
Mas nao aperta o gatilho
Como um falso trocadilho
De sapo, sapa e sapé
Como um côco catolé
Sendo esquecido no cacho
E mesmo assim que me acho
Distante de Sao José
A cabra vendo a carcaça
Do cabrito devorado
Um vira-lata acuado
Por um cachorro de raça
Como quem conquista a taça
Mas nao sabe do que é
Como quem fica de pé
Mas nao ver o que deseja
Sou eu tomando cerveja
Distante de Sao José
A cabra vendo a carcaça
Do cabrito devorado
Um vira-lata acuado
Por um cachorro de raça
Como quem conquista a taça
Mas nao sabe do que é
Como quem fica de pé
Mas nao ver o que deseja
Sou eu tomando cerveja
Distante de Sao José
Comadre Fatima e Taiza
Cadê as noticias suas?
Tava jà ficando doido
Correndo nù pelas ruas
Quando um vento-pajeu
Passou em Caruaru
Troxe noticia das duas.
Resposta do Poeta ao comentário de Josa Rabelo, falando que o mesmo dificilmente alcançaria o cume da montanha... A sorte essa uma sombra acolhedora encontrada na subida.
Valeu meu nobre poeta
Pelo incentivo e estima
A serra era muito alta
Sofri pra chegar em cima
Mas o cume me inspirava
Cada vento que passava
Trazia um feixe de rima.
GÊNESIS
Quando Deus inflamado de improviso
Pois o Tudo no nada que era caos
Reuniu todo ser no paraiso
Sò os "bons"!! não havia ainda os maus!
Mas, os "bons" quase nunca têm juizo
São sem leme e sem vela suas naus
Cometeram de modo impreciso
Um pecado de cento e oitenta graus.
Deus irou-se banindo-os do Eden
Mas, os "bons" por clemência nunca pedem
Orgulhosos não mudam de conduta.
Jà os "maus" que têm medo de cobiça
Todo dia que podem vâo à missa
E os "bons" todo dia vão à luta.
(Padre Brás Ivan)
Ques Casar Cum Eu?
Coração si tu quiser
Juntar os trocim mais eu
Cuma marido e muié
Eu e tu e tu e eu
Eu vendo as minha cabrinha
Tu vende as tua galinha
Nòis compra tudim de troço
E tu vem pro meu ranchim
Que è piqueno e pobrizim,
Mas serà todinho nosso.
Si tua mâe disser não
E teu pai me rifugar
Num chore não coração
Di noite eu vou te robar
Eu selo a besta baxêra
Nois parte in toda carrera
Cuma quem disimbestado
E vamu pra São Josè
Quandu os teus pai derem fè
Nois ja vamo ta casado
E depois disso sò Deus
Impata o amor da gente
Eu tano nos braçus teus
Num quero oto presente
Vamu combinar assim?
Tu vai cuidandu di mim
E eu cuidando de tu
E pra ser feliz di vez
Vamu viver sò nois tres
Tu, eu e o Pajeù.
Mas si tu disser qui não
Qui num sente amor pureu
Possa saber coraçâo
Qui o mundo pra mim morreu
Abandonu minha lida
Me dismantelo na vida
Dano-me a beber cachaça
Si tu num for o meu ganho
Sò Deus qui sabe o tamanho
Qui vai ser minha disgraça
Pruquê sem tu meu amor
O resto è tudim inçosso
È sem graça e sem sabor
Cuma carne de pescoço
Ave Maria três vez
Se tu me deixar di vez
Pra mim vai ser um horror
Eu mermu mim interro vivo
Na tumba iscrevo o motivo:
Essi aì morreu di amor
Mâe Centenària(9 de março Centenario de São José)
Oh! Espartacus de poetas guerreiros
Oh! Atlantida de vates submersos
Salve! Meca de incrédulos violeiros
Salve! Jerusalém a mâe dos versos.
Protegei! musa-mor, nòs, teus herdeiros
Exilados, saudosos e dispersos
Abênçoas! teus filhos extrangeiros
Que te amam de modos controversos
Oh! augusta senhora solidària
Fonte de poesia centenària
Guardiã dos umbrais da inspiração.
Soberana dos versos arquiteta
Protetora de quem nasceu poeta
Fiz pra ti este verso em Oração
Recuso a apelação
Reconheço a circunstãncia
Nâo vou a terceira instãncia
Aceito a acusação
Nâo quero abssolvição
Quero aceitar meu pecado
Falar em frente ao jurado
Contra mim mesmo depor:
No tribunal do amor
Sou reu confesso e culpado
Mas o que posso fazer
Se estou cumprindo um mandato
Tenho mais que padecer
No meu exilio privato
Mas quando eu voltar pra casa
Essa saudade que abrasa
Vou muda-la em poesia
Mudar em sorriso o pranto
E vou viver no meu canto
Mais feliz do que vivia.
Eu nunca mais fiz um verso
Não por falta de vontade
Mas porque andei disperso
Cheio de ansidade
Todo verso que eu fazia
Tinha uma rima vazia
Sem métrica e inspiração
Foi quando um médico agnòstico
Me deu o diagnòstico
Isso é banzo do sertão
Manoel atingiu a perfeição/ Em conduta, bondade e poesia
MANOEL ATINGIU A PERFEIÇÃO
EM CONDUTA, BONDADE E POESIA
(Felizardo Moura – Luis Homero)
Um espírito de luz incandescente
De um saber muito mais que literário
Todo dia rasgava o calendário
Com a força imortal de seu repente
Se bebesse cem doses de aguardente
Não tombava pra trás e nem pendia
Quase tudo na vida ele sabia
Tinha o censo de um “adivinhão”
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Se glosasse na mesa ou desse um tema
Retratava o mundo em duas linhas
A dureza do bico das galinhas
E a tristeza do sono da jurema
Colocava doçura em seu poema
Ninguém sabe de onde minaria
Abstrato do mel na ventania
Que carrega da pinha do oitão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Se alguém perguntasse como vai?
Vou prestando resposta imediata!
Pra chegar não marcava nunca a data
Nem dizia o momento quando sai
Um herdeiro legitimo do seu pai
Zé Filó doador da teoria
Se quisesse viver da cantoria
Tinha sido do mundo assombração
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Em conduta foi mais do que perfeito
Na bondade ninguém lhe imitou
Na poesia chegou e ultrapassou
Os limites da linha do seu peito
Se qualquer ser humano tem defeito
Eu discordo, em Filó não existia
Foi exemplo do mundo onde vivia
E hoje é mestre em outra encarnação
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
O carão assustado não dormiu
Nos espinhos da velha quixabeira
O canário amarelo de aroeira
Avistou o palanque e não subiu
Foi embora o poeta que o Brasil
Por ser grande demais não conhecia
Ta de luto o baião da cantoria
Multiplica a saudade de Cancão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
O semblante da paz foi estampado
No seu rosto coberto de verdade
Sempre quis demonstrar felicidade
Tudo quanto era bom queria mais
O carisma dos tempos de rapaz
Com um gesto bondoso transmitia
Fez travar o portão da ventania
E botou teto no vão da amplidão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Decantou os segredos naturais
Com grandeza e total conhecimento
A feiúra que tem o papa vento
Na faxina da cerca dos currais
Vaga-lume que pisca nos quintais
Na neblina testando a bateria
A zabumba do canto de uma jia
Quando a noite escorresse o cacimbão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Não gostava de ocupar ninguém
Disfarçava da raiva absoluta
Nunca quis medir força sem disputa
Era simples, vivei só pelo bem
Sua fonte vertia do além
Extraída da vã filosofia
Quase não recitava o que fazia
Tinha medo de sua imensidão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Comparou o balanço da morena
Com o leque sutil da carnaúba
E o seu corpo macio igual a fuba
Revestido da pele que serena
Sutileza do faro da Hiena
E da onça que sai da gruta fria
Deita em cima das mãos quando anuncia
Que a pressa já vem na direção
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Se um amigo ele fosse visitar
Com certeza levava algum presente
Possuía afeição pelo parente
Do ausente vivia a se lembrar
Tinha um jeito modesto de tratar
Quem chegasse na sua companhia
Se uma frase ferisse não dizia
Para não magoar um coração
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
EM CONDUTA, BONDADE E POESIA
(Felizardo Moura – Luis Homero)
Um espírito de luz incandescente
De um saber muito mais que literário
Todo dia rasgava o calendário
Com a força imortal de seu repente
Se bebesse cem doses de aguardente
Não tombava pra trás e nem pendia
Quase tudo na vida ele sabia
Tinha o censo de um “adivinhão”
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Se glosasse na mesa ou desse um tema
Retratava o mundo em duas linhas
A dureza do bico das galinhas
E a tristeza do sono da jurema
Colocava doçura em seu poema
Ninguém sabe de onde minaria
Abstrato do mel na ventania
Que carrega da pinha do oitão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Se alguém perguntasse como vai?
Vou prestando resposta imediata!
Pra chegar não marcava nunca a data
Nem dizia o momento quando sai
Um herdeiro legitimo do seu pai
Zé Filó doador da teoria
Se quisesse viver da cantoria
Tinha sido do mundo assombração
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Em conduta foi mais do que perfeito
Na bondade ninguém lhe imitou
Na poesia chegou e ultrapassou
Os limites da linha do seu peito
Se qualquer ser humano tem defeito
Eu discordo, em Filó não existia
Foi exemplo do mundo onde vivia
E hoje é mestre em outra encarnação
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
O carão assustado não dormiu
Nos espinhos da velha quixabeira
O canário amarelo de aroeira
Avistou o palanque e não subiu
Foi embora o poeta que o Brasil
Por ser grande demais não conhecia
Ta de luto o baião da cantoria
Multiplica a saudade de Cancão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
O semblante da paz foi estampado
No seu rosto coberto de verdade
Sempre quis demonstrar felicidade
Tudo quanto era bom queria mais
O carisma dos tempos de rapaz
Com um gesto bondoso transmitia
Fez travar o portão da ventania
E botou teto no vão da amplidão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Decantou os segredos naturais
Com grandeza e total conhecimento
A feiúra que tem o papa vento
Na faxina da cerca dos currais
Vaga-lume que pisca nos quintais
Na neblina testando a bateria
A zabumba do canto de uma jia
Quando a noite escorresse o cacimbão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Não gostava de ocupar ninguém
Disfarçava da raiva absoluta
Nunca quis medir força sem disputa
Era simples, vivei só pelo bem
Sua fonte vertia do além
Extraída da vã filosofia
Quase não recitava o que fazia
Tinha medo de sua imensidão
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
Comparou o balanço da morena
Com o leque sutil da carnaúba
E o seu corpo macio igual a fuba
Revestido da pele que serena
Sutileza do faro da Hiena
E da onça que sai da gruta fria
Deita em cima das mãos quando anuncia
Que a pressa já vem na direção
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia.
Se um amigo ele fosse visitar
Com certeza levava algum presente
Possuía afeição pelo parente
Do ausente vivia a se lembrar
Tinha um jeito modesto de tratar
Quem chegasse na sua companhia
Se uma frase ferisse não dizia
Para não magoar um coração
Manoel atingiu a perfeição
Em conduta, bondade e poesia
quarta-feira, 10 de março de 2010
Verso do poeta Antonio Francisco
Dê uma volta no carro da amizade
Puxe oitenta kilômetros de amor
Se desvie da estrada do rancor
Dê banguela descendo a humildade
Acenda os faróis da caridade
E ilumine a estrada do irmão
Baixe o vidro da porta e dê com a mão
é um gesto tão simples mais conforta
a amizade é a chave que abre porta
Do castelo onde mora o coração
Antonio Francisco (poeta Mossoroense)
Puxe oitenta kilômetros de amor
Se desvie da estrada do rancor
Dê banguela descendo a humildade
Acenda os faróis da caridade
E ilumine a estrada do irmão
Baixe o vidro da porta e dê com a mão
é um gesto tão simples mais conforta
a amizade é a chave que abre porta
Do castelo onde mora o coração
Antonio Francisco (poeta Mossoroense)
AO POETA PHELIPE MOURA
Verso em reposta ao verso do poeta Raphael Moura, grande revelação de Serra Talhada:
Valeu meu poeta é grande o seu dom
Na poesia, improviso, e na rima
Descreve a paisagem, as flores o clima
Relatando a vida e tudo bom
E agora feliz eu já estou com
A sua amizade no seu versejar
Sei que agora já posso contar
Com sua atenção, carinho e respeito
Já és para um poeta perfeito
Nos dez de galope da beira do mar.
(Josa Rabelo)
Valeu meu poeta é grande o seu dom
Na poesia, improviso, e na rima
Descreve a paisagem, as flores o clima
Relatando a vida e tudo bom
E agora feliz eu já estou com
A sua amizade no seu versejar
Sei que agora já posso contar
Com sua atenção, carinho e respeito
Já és para um poeta perfeito
Nos dez de galope da beira do mar.
(Josa Rabelo)
Dia Internacional da Mulher
A Mulher Obra Divina
Criada da Inspiração
De Deus Pai e Onipotente
E com a Grande Missão
De ser Mãe, Esposa e Amiga
Com enorme coração
Mulher é “flor” mais Bela
Que a natureza criou
Conseguiu o seu espaço
Pra isto muito lutou
Viva o Dia da Mulher
Viva àquele que o criou
Seu Dia Internacional
É de Enorme Valia
Sua Luta e Dedicação
Sua Força e Valentia
Merece Bem ser Lembrado
Toda Hora, Todo Dia.
(Josa Rabelo)
AO POETA SEBASTIÃO MARINHO
Meus parabéns ôh poeta,
Nesta data de alegria
Os anos multiplicados
Te desejo todo dia
Um caminhão de repente
Embrulhado de presente
Envolto com a poesia.
sds.: Poéticas Pajeuzeiras
(Josa Rabelo)
Criada da Inspiração
De Deus Pai e Onipotente
E com a Grande Missão
De ser Mãe, Esposa e Amiga
Com enorme coração
Mulher é “flor” mais Bela
Que a natureza criou
Conseguiu o seu espaço
Pra isto muito lutou
Viva o Dia da Mulher
Viva àquele que o criou
Seu Dia Internacional
É de Enorme Valia
Sua Luta e Dedicação
Sua Força e Valentia
Merece Bem ser Lembrado
Toda Hora, Todo Dia.
(Josa Rabelo)
AO POETA SEBASTIÃO MARINHO
Meus parabéns ôh poeta,
Nesta data de alegria
Os anos multiplicados
Te desejo todo dia
Um caminhão de repente
Embrulhado de presente
Envolto com a poesia.
sds.: Poéticas Pajeuzeiras
(Josa Rabelo)
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